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Mordendo a mão que lhe alimenta
Como tudo em Cuba, o cinema é um monopólio estatal exercido pelo onipresente ICAIC, Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematograficos.
Já ouvi algumas histórias de horror sobre o ICAIC. O financiamento é pouco, somente alguns filmes podem ser produzidos por ano, o processo de escolha acaba se tornando feroz e politizado, o comitê executivo escolhe sempre os roteiros dos seus amigos e afilhados, uma frase pouco revolucionária pode condenar seu filme à não-existência, etc. Tudo bastante previsível em um órgão centralizado e centralizador.
O surpreendente são os filmes. Assistindo aos mais recentes, não se vê essa estrutura soviética de produção. Não parecem filmes ideologicamente bem-comportados escolhidos por um comitê revolucionário. Sim, não são formalmente ousados. O estilo, a fotografia, os roteiros, tudo é muito certinho – com raras e honrosas exceções. Entretanto, não há um único roteiro que não contenha fortes críticas ao mesmo governo que está pagando a conta.
Os maiores sucessos
O maior sucesso internacional do cinema cubano é “Fresa y chocolate” (Tomas Gutierrez Alea, 1993), no qual um militante comunista fica amigo de um artista gay com o propósito de denunciar suas atividades contra-revolucionárias. Ao longo do filme, porém, os dois vão ficando amigos e o comunista descobre, para sua surpresa, todo o preconceito oficial e social contra homossexuais em Cuba. Por fim, o gay (sempre mostrado positivamente) conclui que sua carreira nunca irá a lugar nenhum no país e dolorosamente decide emigrar, com o apoio de seu amigo comunista. Ou seja, do começo ao fim, é uma grande crítica à homofobia cubana – a começar pela governamental. Fidel disse uma vez não acreditar que um homossexual pudesse ser um revolucionário.
O Aeroporto Internacional José Martí, aliás, é a maior presença do cinema cubano. De todos os muitos filmes que vi, só consigo lembrar de um único (“Lista de espera”, meu preferido) em que não há ninguém chegando ou saindo do país. O exílio é uma presença constante, forte, viva na cultura cubana. Todo mundo tem amigos, conhecidos, parentes na diáspora, que, apesar de viverem fora do país há mais de cinqüenta anos, mesmo algumas tendo nascido no exterior e nunca visitado Cuba, se sentem fortemente cubanas e continuam criando arte cubana no exílio.
Outro grande sucesso internacional do cinema cubano foi “Guantanamera” (Tomas Gutierrez Alea e Juan Carlos Tabio, 1995), mistura de road-movie com comédia, no qual um burocrata ambicioso e insensível, mas honesto, inventa um sistema socializado de transporte de corpos. Quando morre uma velhinha em um canto da ilha e tem que ser enterrada no outro, ele e sua esposa decidem acompanhar o corpo para testar o método. Cruzam o país, conhecem todo tipo de gente, etc. Em termos de críticas ao governo, é um dos mais suaves. Ainda assim, uma das mensagens principais é que a burocracia cubana perdeu os limites do ridículo. Foi o último filme de Alea, de quem falarei mais.
Sinceramente, apesar do sucesso que fizeram, “Fresa y chocolate” e “Guantanamera” são dois filminhos banais, que acho que só interessam a alguém como eu, que queria conhecer mais sobre Cuba.
“La vida es silbar” (Fernando Perez), único longa-metragem de ficção produzido em Cuba em 1998, acumulou prêmios por todo o mundo e foi muito badalado. Tem alguns elementos geniais, como a senhora que desmaia cada vez que alguém fala a palavra amor e a cena na qual seu psicólogo sai pela rua disparando outras palavras que também fazem as pessoas desmaiarem, mas achei um filme muito desigual.
Minhas sugestões
“Suite Habana” (Fernando Perez, 2003) é um mezzo-documentário que acompanha a vida de dez havaneiros comuns. Não há diálogos, mas as músicas e efeitos sonoros são fascinantes. Quase vale por uma visita a Havana – só faltam os cheiros. Uma hora e meia de um filme sem diálogos pode ser absurdamente tedioso, mas vale a pena, nem que você tenha que assistir em três sentadas. Dos que conheço, é o único filme produzido em Cuba cuja câmera foge ao lugar-comum do cinema narrativo. A fotografia, os ângulos, os takes, tudo é plasticamente lindo e ousado.
Entretanto, em termos de plasticidade e ousadia cinematográfica, nada se compara a “Soy Cuba” (Mikhail Kalatozov, 1964). Em plena crise dos mísseis, o governo soviético enviou uma missão à ilha para fazer “o grande filme cubano”. São quatro histórias ambientadas na Cuba pré-revolucionária, também sem diálogos, mostrando como a vida da população era insustentável e, conseqüentemente, justificando a Revolução. Apesar de às vezes insuportavelmente tedioso, é o filme mais lindo que já vi. O soviético faz coisas com aquela câmera que nunca ninguém tinha ousado fazer. De acordo com os artigos que li, algumas ninguém ainda conseguiu (ou se dispôs a) repetir.
Ironicamente, “Soy Cuba”, uma das maiores obras-primas do cinema de todos os tempos, nasceu com objetivos políticos e foi morto por objetivos políticos. As autoridades cubanas acharam que o filme mostrava o país e seus habitantes de forma esquemática, simplista, condescendente, e não permitiram sua exibição na ilha. As autoridades soviéticas consideraram o filme insuficientemente ideológico (a grande arte sempre é) e também não permitiram sua exibição. Não comunista o suficiente para os soviéticos, o filme foi considerado comunista demais pelos americanos e também censurado. Até sua recuperação na década de noventa, quase ninguém tinha visto “Soy Cuba”. Não cometa esse erro. Corra atrás. Faz pouco tempo, um cineasta brasileiro fez um documentário sobre a realização de “Soy Cuba” que ainda não consegui encontrar: "O mamute siberiano".
Dos clássicos do cinema cubano da década de sessenta, há dois que eu adoro: “Morte de um burocrata” (1966) e “Memórias do subdesenvolvimento” (1968), completamente diferentes e obras do mesmo diretor, Tomás Gutierrez Alea, o papa do cinema cubano.
“Morte de um burocrata” é uma comédia sobre um operário-modelo que, em honra de seus anos de serviço impecáveis, é enterrado por seus colegas com seu carnê de trabalho. Entretanto, a viúva precisa do carnê para receber sua aposentadoria. O filme mostra o desesperador labirinto burocrático que ela e seu sobrinho precisam percorrer para conseguir desenterrar o velho e pegar o documento. Mais uma vez, críticas ao governo do começo ao fim.
“Memórias do subdesenvolvimento”, de todos os filmes cubanos que assisti, é ao mesmo tempo o mais pró-Revolução e a obra de arte mais bem-construída. Baseado no romance homônimo de Eduardo Desnoes (que faz uma ponta no filme como ele mesmo), mostra a vida de um burguês rico que decide ficar em Cuba após a queda de Batista e a emigração de toda sua família e amigos, inclusive a esposa. O filme tem um movimento ideológico interessante. Há críticas ao novo governo do começo ao fim, mas, como são feitas pelo protagonista reacionário e antipático, a mensagem do filme acaba sendo: vejam, a Revolução está tirando os privilégios dos burgueses e eles não estão gostando, os canalhas! Não se deixem enganar pela ideologia: é um filmaço, bem-conduzido, bem-realizado, fascinante, obra de arte do começo ao fim.
Da produção recente, gostei muito de dois filmes que quase não foram badalados: “Aunque estés lejos” (2003) e “Lista de espera” (2000), ambos de Juan Carlos Tabío.
“Aunque estés lejos” tem um dos roteiros mais originais do cinema cubano contemporâneo. Uma equipe do ICAIC está na Espanha buscando patrocínio para um filme – praticamente todos os filmes recentes do ICAIC têm co-produção européia. À medida que vão sugerindo idéias de roteiro, as sugestões vão se incorporando à “história real” vivida pela equipe do ICAIC, até o ponto em que não se sabe mais onde começa uma e termina a outra. Apesar da metalinguagem já não ser mais novidade vanguardista faz tempo, foi uma delícia assistir um filme que brinca o tempo todo com a própria idéia de cinema, cheio de piadas internas e detalhes escondidos. Raros foram os filmes que, como esse, terminei e recomecei a ver na mesma hora.
Por fim, meu preferido geral é talvez o mais simples e mais barato de todos, uma comédia despretensiosa, mas muito bem realizada, roteiro e atuações impecáveis, mas sem ousadia ou vanguardismos: “Lista de espera” mostra um grupo de cubanos em uma parada de ônibus isolada, esperando um ônibus que nunca chega. Nesse meio tempo, interagem, se amam, se odeiam, brigam, tudo aquilo que fazem dezenas de seres humanos desconhecidos obrigados a conviver por um longo período de tempo. Uma pequena jóia.
Jorge Perugorria
Não dá pra falar de cinema cubano sem falar em Jorge Perugorria.
Precisei ver uns três filmes com ele até me dar conta de que era a mesma pessoa. Ao contrário dos pseudo-grandes-atores que fazem sempre o mesmo papel (Al Pacino, Jack Nicholson), Perugorria é um verdadeiro camaleão, às vezes completamente irreconhecível. Em sua estréia, “Fresa y chocolate”, era um homossexual tão perfeito, sutil e bem-construído que você juraria que o homem jamais poderia ser hetero. No filme seguinte, “Guantanamera”, era um rude, barbado e peludo caminhoneiro. Em “Frutas en el café”, um fervoroso pequeno burocrata comunista, tímido, reprimido e careca. Em “Lista de espera”, um cego cambalacheiro. Em “Rosa de Francia”, um capitão de navio ao mesmo tempo bom e mau, golpista e honesto. A lista continua: o homem parece estar em dois terços dos filmes cubanos.
Em minha humilde opinião, Perugorria é um dos melhores atores de sua geração, de qualquer lugar do mundo.
Ironicamente, quando falei isso aqui em Cuba, discordaram de mim todas as vezes. Dizem que a opinião corrente é que Perugorria interpreta sempre o mesmo papel.
Casa de ferreiro, espeto de pau.
Site oficial do ator.
Sexo e nudez
Perguntou uma amiga americana: por que o cinema latino-americano sempre mostra nudez, mesmo quando não é necessária? E eu perguntei de volta: por que o cinema norte-americano sempre foge da nudez, mesmo quando ela seria natural?
Obviamente, os dois estão certos: depende das expectativas e contexto de cada cultura. O cinema latino-americano muitas vezes apela com suas longas cenas de pornografia gratuita. Por outro lado, é constrangedor ver o esforço de muitos filmes norte-americanos pra fugir, esconder, reprimir o sexo e a nudez. Especialmente ridículas são aquelas cenas em que os personagens andam nus pela casa, mas seus membros sexuais, por incríveis malabarismos de câmera, estão sempre atrás de algum vaso. O filme “Corra que a polícia vem aí” tem uma cena brilhante que satiriza essa idiotice. De fato, em muitos filmes americanos, a nudez acaba sendo enfatizada justamente pela sua ausência. Como disse Borges, a melhor maneira de chamar atenção para uma palavra é não usá-la nunca.
Enfim, nunca vi outro cinema (nem o europeu, algumas vezes tão apelativo quanto o latino) onde a nudez seja mostrada de forma tão lindamente natural quanto o cubano – sem apelação e sem pudores. Digo mais: é uma naturalidade tão perfeita e tão disseminada que só pode ser fruto de uma política explícita, aplicada consistentemente. Ninguém veste uma camiseta pra se levantar da cama e ir até a geladeira. Os amantes, depois do sexo, conversam nus, na cama, ou andando pela casa. Não há ênfase alguma em mostrar seus órgãos sexuais, mas também não há nenhuma tentativa de escondê-los. A nudez é tão natural que chega a se tornar assexuada.
Os personagens se levantam da cama nus e andam pelo quarto como uma pessoa normal andaria nua pelo seu quarto: não há nem o close na bunda do cinema apelativo latino ou o vaso na frente do pênis do pudico cinema americano.
A vida sexual das cinqüentonas
Para um carioca, da terra do culto ao corpo, onde os feios são quase párias, espanta ver a quantidade de mulheres cinqüentonas sexualmente ativas e atraentes
do cinema cubano. Convenhamos: com raras e honrosas exceções, no Brasil, os atores ainda podem interpretar galãs até os oitenta (Tarcísio Meira já está beirando os cem), mas as mulheres muito cedo se vêem restritas aos papéis de vovó. As poucas exceções à regra são as atrizes absolutamente belíssimas. Fica implícito que mulheres somente podem continuar seres humanos sexuais depois dos cinqüenta se forem verdadeira divas. Às feias, resta interpretar a Dona Benta.
Algumas das figurinhas mais fáceis do cinema cubano, Mirtha Ibarra, Susana Perez e Beatriz Valdés, são atrizes que já dobraram o Cabo da Boa Esperança faz tempo, não se enquadram nos padrões estéticos vigentes e não são divas nem símbolos de sexuais, mas interpretam sempre mulheres que amam e são amadas, que fazem sexo com a naturalidade das pessoas comuns, sem aquela presunção de que a vida sexual no cinema termina aos cinqüenta.
Aliás, a Susana Perez é meio feinha, mas a Mirtha Ibarra é um charme e a Beatriz Valdés é o máximo.
Fábrica de pôsteres
Talvez por compromisso artístico, talvez para gerar empregos para os artistas plásticos cubanos, o fato é que o ICAIC refaz localmente todos os pôsteres de cinema. Nenhum filme passa em Cuba com seu pôster original. E não são simples pôsteres, mas verdadeiras, algumas vezes lindíssimas, obras de arte. Ao longo de quase cinqüenta anos, o resultado é um corpus artístico simplesmente impressionante. Não é à toa que se encontram esses pôsteres para vender por toda Cuba. São um presente muito mais original e tipicamente cubano do que fotos do Ché ou vistas aéreas de Havana. Estou levando três para decorar minha casa e minha sala na universidade: “Soy Cuba” e “Suite Habana”, dos quais já falei, e “Cimarrón”, um documentário sobre os negros quilombolas cubanos.
Abaixo, a ante-sala do ICAIC, onde estão expostos alguns dos melhores pôsteres. Fotos tiradas graças à cara-de-pau do meu amigo bozó Cándido.


Comprando filmes cubanos em Cuba
Comecei a falar de cinema cubano e um leitor me pediu pra trazer uns filmes. Coitadinho! Achou mesmo que dava pra comprar filmes cubanos aqui? Em Cuba? Seria mais fácil encontrar papel higiênico! Para assistir a produção nacional, os cubanos precisam esperar que passe nos cinemas ou reprise nas salas de vídeo. Todos esses filmes que vi foram baixados pelo eMule.
Na verdade, acabou acontecendo outra coisa muito interessante: fiz verdadeiras tertúlias cinematográficas aqui em casa, justamente para mostrar aos amigos não só filmes cubanos que perderam quando passaram no cinema, como também, mais ainda, filmes cubanos produzidos na diáspora, proibidíssimos na ilha.
Nunca me senti tão subversivo.
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