Cuba, País Mais Importante da América Latina

Ou será o Brasil?

Matéria interessantíssima do El País comparando a importância internacional de Cuba e do Brasil. (Via Torre de Marfim.)

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El país más importante de Latinoamérica

Bill Clinton y George W. Bush acaban de tener un debate cara a cara en Canadá donde discutieron los grandes temas de nuestro tiempo. ¿Cuál fue el único país de América Latina mencionado en la conversación? Cuba. En abril se reunieron en Trinidad los jefes de Estado de las Américas. ¿El tema central? Cuba -el único país que no fue invitado a esa cumbre-. Ahora, se reúne la Organización de Estados Americanos (OEA) en Honduras. ¿Cuál es el problema central que domina las deliberaciones de los ministros del continente y que obliga a Hillary Clinton a distraer su atención de la bomba atómica norcoreana y de las crisis en Oriente Próximo, Afganistán y Pakistán para viajar a esta cumbre de la OEA? Cuba, por supuesto.

La pequeña isla de Cuba suscita más interés que una potencia dinámica como Brasil

Hace poco, el Brookings Institution, un think tank de Washington, organizó una reunión para debatir la situación de Cuba. La sala se llenó. Pocos días después convoco a otra reunión a la que no fue casi nadie. ¿El tema? Brasil.

Este enorme interés por Cuba no es sólo de presidentes, ministros y periodistas de América. En Europa pasa lo mismo. Y según Google, Cuba casi duplica a Brasil en número de sitios de Internet relacionados con cada uno de los dos países.

Así las cosas, si un marciano aterrizase en nuestro planeta le sería obvio que Cuba es el país más importante de América Latina. Pero esta conclusión duraría sólo hasta que tuviese que ubicar a la isla en un mapa. O comparar a Cuba con otros países de la región: con Brasil, por ejemplo.

Brasil ocupa casi la mitad de todo el territorio de Suramérica y es el quinto país más vasto del mundo. Su superficie es casi 80 veces más grande que la de Cuba. En una sola ciudad brasileña -São Paulo- vive más gente que en toda Cuba. La economía brasileña es una de las más grandes y dinámicas del mundo, y es 31 veces más grande que la de Cuba. El intercambio comercial entre Brasil y el resto del mundo es 25 veces mayor que el de Cuba. Las fuerzas armadas de Brasil son diez veces más numerosas que las de Cuba. En las negociaciones mundiales sobre medio ambiente, comercio, seguridad nuclear, sistema financiero, energía o la lucha contra la pobreza, Brasil es un actor principal.

¿A qué se debe, entonces, esta atención casi obsesiva a la pequeña isla caribeña? ¿Por qué hay más interés en Cuba que en Brasil?

La explicación más común es que Cuba tiene un valor simbólico más potente que el de Brasil. Es el pequeño país que decidió enfrentarse al imperio yanqui y al cual el imperio no ha podido doblegar. Es la isla con líderes icónicos como Fidel Castro y el Che Guevara, y el país latinoamericano que encarna la lucha del humanismo socialista contra el materialismo capitalista. Cuba también fue la pequeña nación que en otras épocas envió sus tropas a América Latina y a África a luchar y morir por defender a los más pobres [y los intereses del Kremlin, pero ésa es otra historia]. Y también el país cuyos avances en materia de atención médica y educación para la mayoría fueron legendarios. Es el pequeño país al cual Estados Unidos agrede desde hace décadas con un absurdo embargo.

Lástima que también sea el país en el cual hay gente dispuesta a echarse al mar y arriesgar la vida con tal de escapar de las privaciones materiales, la represión y la asfixia política. Un país cuya economía depende de las limosnas de sus aliados para subsistir, y donde la escasez y el desabastecimiento son la norma. También el país donde, por más de medio siglo, el poder ha estado en manos de la misma familia.

Mientras tanto, en Brasil... Gobierna un presidente de izquierda, líder sindical que fue democráticamente electo dos veces y goza de los niveles de popularidad más altos del mundo. También es el país que más ha logrado reducir la desigualdad económica. Sucesivos Gobiernos brasileños -de partidos rivales- han logrado mejorar la calidad de vida, la educación y la salud de millones de pobres y Brasil es hoy uno de los modelos por sus éxitos en la lucha contra el sida, el analfabetismo o el uso de fuentes alternas de energía. En fin, un país que no es tan interesante como la fracasada isla del Caribe.

Por Moisés Naím


Radical Rebelde Revolucionário

Brigando por Causa de Cuba

Tem muitas coisas que não entendo na vida. Uma delas é como as pessoas esquentam a cabeça por besteira - especialmente na internet.

Esses dias, o Gravatá fez um post sobre Cuba. Eu estava em trânsito, voltando pro Rio, e nem vi, mas vários leitores (daqueles que ficavam assoviando quando tinha briga no pátio da escola) vieram me dizer que o Gravatá estava me provocando, atacando, etc.

Não acredito que o Gravatá iria fazer um post-indireta, falando mal de mim sem citar meu nome, quando poderia simplesmente me mandar um email e me dizer o que quisesse, mas enfim, foi tanta gente que veio me assoviar no pátio da escola que, independente das intenções do Gravatá, seu texto estava sendo lido como um ataque a mim, então cabe um esclarecimento.

Sinceramente, não entendo tanto histerismo em relação a Cuba, tanto por parte da direita quanto da esquerda. Eu estudo e trabalho Cuba, mas meu interesse é a literatura do século XIX, muito antes que essas babaquices de guerra fria viessem polarizar nossos ânimos.

Cuba é um assunto como qualquer outro e, numa democracia como o Brasil, pode ser abordado e tratado por qualquer um. Ninguém precisa ser crítico literário para falar de Hamlet. Ninguém precisa conhecer a China para falar sobre a China. Não sei vocês, mas me dou o direito de falar sobre qualquer assunto.

Aliás, o engraçado é justamente isso: o fato de Cuba não ser tratado como um assunto qualquer. Cuba aparentemente convida ao extremismo. Todo mundo parece se exalta: à esquerda, à direita, e até ao centro.

Outro dia, o Polzonoff veio dizer que já perdeu muitas amizades por causa de Cuba e aquilo me deixou surpreso. Nunca perdi amizade por causa de país nenhum. Como pode isso? Como alguém pode levar uma bobagem dessas tão a sério assim? E disse ao Polzonoff que a culpa provavelmente não foi de Cuba: ele e seus amigos é que gostam de bater-boca à toa. Resultado: ele ficou puto comigo, me acusou de ególatra (achou que eu achei que ele estava falando de mim!), e deu a maior confusão até conseguirmos resolver o mal-entendido.

Minha ex-namorada é de uma tradicional família intelectual esquerdista. Para eles, Cuba era uma utopia, a grande esperança da América Latina. Um de seus tios chegou a fugir pra Cuba depois do fiasco da luta armada e concluiu a faculdade lá. Já eu sou de uma tradicional família burguesa católica conservadora. Pra eles, Cuba é o bicho-papão. Quando minha mãe conheceu a namorada, ela pegou em seu pulso e disse, muito séria: "Olha, eu vou só te pedir uma coisa!" E pensamos que ela iria dizer: "Não quebra o coração do meu filho!", "Cuida bem dele", ou coisas assim, mas nada disso. Minha mãe pediu: "Não deixa esse menino ir pra Cuba de novo." Meu pai, com menos drama, pediu a mesma coisa. Dois lados da mesma moeda.

Na verdade, não só ninguém precisa ir a Cuba para ter direito de falar de Cuba como talvez o oposto seja verdadeiro: Cuba é um dos poucos países que você pode conhecer *menos* justamente porque o visitou. Regularmente, o governo cubano organiza "brigadas da solidariedade", que são excursões especialmente organizadas para ajudar a levantar fundos para a Revolução e mostrar seus principais feitos a simpatizantes de todo o mundo. A programação dessas brigadas é de gelar o sangue: os participantes ficam o tempo todo acompanhados de funcionários do governo e não tem nenhum contato com a população que não seja mediado por eles. Ou seja, só vêem o que o governo quer que vejam: voltam sabendo ainda menos do que sabiam antes, com uma visão completamente parcial e distorcida do país. Imaginem se o Brasil tivesse excursões especialmente organizadas pelo Governo Lula (ou os EUA, pelo Governo Bush) somente para mostrar as maiores conquistas daquela administração!

O objetivo do meu novo blog Pior que Cuba não é impedir ninguém de falar de Cuba. Eu adoro Cuba, estudo Cuba, escrevo sobre Cuba, pretendo ensinar Cuba: se as pessoas pararem de falar de Cuba, eu perco o emprego.

O objetivo do blog também não é dar carteirada em ninguém e sugerir que só pode falar de Cuba quem pesquisou o assunto ou quem esteve lá, ou qualquer coisa assim. Em um país democrático e com liberdade de expressão como o nosso (o que, infelizmente, não é o caso de Cuba) todos podem falar sobre o que quiserem, com conhecimento de causa ou não. Sou contra até mesmo a obrigatoriedade de diploma pro exercício da profissão de jornalismo, imagina se vou achar que só pode falar de Cuba quem visitou o país!

E muito menos o blog foi um ataque, indireto ou não, ao Gravatá, que sempre escreve posts muito divertidos sobre Cuba. Aliás, como sei que ele se interessa pelo assunto, já lhe mandei um exemplar do meu livro sobre Cuba, mas parece que ele não leu ainda.

O objetivo do blog é somente coligir exemplos de pessoas (pró- e contra-Fidel, da direita ou da esquerda) que puxam Cuba para assuntos que não tem nada a ver com o país. Nada contra quem decide falar sobre Cuba, e vai e fala - como o Gravatá, por exemplo. Mas é muito engraçado esse povo que vai falar sobre a ditabranda no Brasil e já puxa logo o Fidel. E os exemplos são muitos. Para fins de bate-boca na internet, Fidel é o Hitler da América Latina.

Não entendo essas pessoas que são pró-Cuba ou anti-Cuba - ou pró-Israel, anti-EUA, etc. Como alguém pode ser contra ou a favor de todo um país? Não gosto de algumas políticas do governo de Israel, mas não sou anti-Israel. Desaprovo algumas iniciativas do Lula, mas não sou anti-Brasil.

Não sou de esquerda. Nunca defendi o Fidel. A Revolução nunca foi minha utopia.

Mas não sou anti-Cuba, oras.

Cuba é um país lindo e intenso, com uma literatura poderosa que eu amo, com uma história que permite muitos paralelos com o Brasil, com um cinema fascinante justamente pela tensão entre o que se fala abertamente e o que não pode ser dito, com um teatro tão rico que, no século XIX, Havana era a capital teatral da América Hispânica.

Até parece que vou ser contra o país de Cirilo Villaverde e Juan Francisco Manzano, de José Martí e Ramon Meza, só porque um barbudo tomou o poder de sua ilha dezenas de anos depois de suas mortes!

E mesmo eu, que adoro, estudo e trabalho Cuba, vocês nunca vão me ver batendo-boca por aí por causa da ilha.

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Radical Rebelde Revolucionário

Meu livro sobre Cuba, Radical Rebelde Revolucionário, escrito em 2007, e disponível em forma de ebook, está vendendo muito bem, obrigado. Algumas das melhores crônicas estão disponíveis no blog. Para todas as outras, só comprando o livro. Abaixo, algumas das minhas preferidas:

O Período Especial e seu Apartheid
A Salada Monetária Cubana
Os Jineteiros
Dionisio, Um Chileno Malandro
As Jineteiras
Cinema Cubano

Para quem tiver curiosidade, eis aqui algumas coisas que já disseram sobre o livro:

Por Que Che Não Escreveu Isso Antes?, pelo insuspeito anti-comunista Adailton Persegonha, do Leite de Pato:

o desfilar de seus personagens reais, a paisagem de um país perdido entre o presente, o passado e um futuro sempre incerto, as confusões de suas diversas moedas, sua crítica ácida (e ranzinza no meu modo de ver) do turismo sob a batuta do seu imenso poder de observação e objetividade me fizeram ter um sonho: ver este livro lançado em território cubano!


Chato, Crítico e Cínico, por Marcos Donizetti:

"Alex Castro é outro tipo de pessoa, tão ou mais irritante que os já citados, para ser sincero. Seja ele visto como um liberal libertário ou como um rebelde revolucionário, ele na verdade é um chato, crítico e cínico. É exatamente por isso que eu o acho a pessoa mais “confiável” para falar sobre Cuba, por mais que ele mesmo deixe claro já no início de seu livro Radical Rebelde Revolucionário que talvez nada do que ele relata nas 155 páginas seguintes seja verdade. É um bom começo."


E o Alex Castro Gosta de Picadura, do Uber-Blogueiro Cardoso:

Hum. Intelectual. Que fuma cachimbo. Passeando em Cuba bancado por universidades para estudar a Disneylandia do Socialismo? Isso sempre dá naqueles livros chatíssimos onde o cara republica propaganda do Partido, ou então é escrito por um anticomunista ferrenho que vai passar o tempo todo falando das atrocidades da Revolução. Todo livro sobre Cuba cai nesses dois modelos. (...)

O livro é excelente, li de uma sentada só, mesmo com isso soando altamente comprometedor em um post com esse título. São 155 páginas com crônicas deliciosas, onde ele conta seu dia-a-dia na terra de Fidel. Ele descreve um povo como qualquer outro. Alegre, triste, otimista, conformado, assustado, orgulhoso, envergonhado.

Ele encontrou Dolores, a bibliotecária mais sensual desde a Barbara Gordon, descobriu que os cubanos também usam o Jeitinho Brasileiro e aprendeu que quem decide o menu é o burocrata do Governo que escolhe quais produtos colocar nas lojas naquela semana. Passou por saias justas com vendedoras de abacaxi, apaixonou-se por vários pés (longa história) e enganou a polícia para tomar sorvete barato.

Alex alterna momentos líricos com o mais puro sarcasmo. (...) Ele comete vários pecados que farão com que a Academia odeie seu livro, e desejasse estar sob o Regime Cubano, onde Alex seria preso e seus livros proibidos. Ele cita o prosperidade artificial graças ao Regime Soviético, conta que os jornais oficiais são subsidiados, e que o povo os usa como substituto de papel higiênico, conta dos táxis para cidadãos, proibidos por lei de levar turistas, e constantemente parados pelo polícia. (...)

Mesmo assim, Radical Rebelde Revolucionário não é um ebook-denúncia. Nem tudo é ruim, nem tudo é um dramalhão mexicano. Alex não tem uma agenda oculta através do livro. Ele consegue falar mal de uma coisa, e na próxima crônica falar bem de outra. Mostra que por detrás da propaganda e da antipropaganda há gente. E gente é sempre interessante.

Recomendo muito a leitura do livro.


Radical Rebelde Revolucionário

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Última recomendação do Alex: por favor, amiguinhos. Se forem brigar, briguem por algo que vale a pena. Por mulher, por homem, por dinheiro, ou até mesmo para conquistar 24 territórios a sua escolha.

Mas não por uma ilhota de barbudos. Sério. A vida é muito curta.

Literatura Independente Consegue Espaço em Cuba

Apesar dos pesares e dos riscos, das ameaças e das controvérsias, o escritor cubano Orlando Luís Pardo Lazo conseguiu lançar seu livro Boring Home em Cuba, sem o apoio das autoridades governamentais mas também sem o seu veto. Ao ser proibido de participar da Feira do Livro, ele fez seu lançamento do lado de fora do evento. Foi uma edição do autor, paupérrima e de tiragem mínima, mas o peso simbólico foi grande. Equipes da CNN e da NBC cobriram o evento ao vivo. O El Pais fez uma boa cobertura. A imprensa cubana e o Miami Herald ignoraram solemente. Leia mais nos links abaixo:

Do El País, de 16 de fevereiro:

Dificultades para la literatura "no oficial" en Cuba
Los 'bloggers' cubanos que apoyan al autor Orlando Luis Pardo Lazo están bajo vigilancia

Do El País, de 17 de fevereiro:

La Habana tolera la presentación de un libro de un escritor crítico con Castro
'Boring Home' de Orlando Luis Pardo Lazo salió a la luz sin que la policía interviniese

Do blog Generación Y, de Yoani Sanchez:

Entre los dos muros
1971 – 2009: el milenio gris
Agradecimiento y pedido
Boring Home

Faça o download do livro em questão: Boring Home, de Orlando Luís Pardo Lazo. Ou, melhor ainda, clique abaixo para ler o meu livro sobre Cuba:

Radical Rebelde Revolucionário

Obama e Cuba

Rafael Rojas, um escritor cubano exilado, no El País:
El primer secretario del Partido Comunista de Cuba, Fidel Castro, escribió que John McCain y Barack Obama eran lo mismo y vaticinó que, llegado el momento, este último, quien de "puro milagro no ha sufrido la suerte de Martin Luther King", no saldría electo ya que el "profundo racismo" que existe en Estados Unidos "hace que la mente de millones de blancos no se reconcilie con la idea de que una persona negra con la esposa y los niños ocupen la Casa Blanca, que se llama así, Blanca". El secretario cultural de ese mismo partido, Eliades Acosta Matos, fue más lejos y dijo que el candidato demócrata era, como Colin Powell y Condoleezza Rice, un producto del neoconservadurismo norteamericano, más peligroso aún que el republicano, puesto que representaba las "suaves maneras del contraataque".

Ambos políticos se equivocaron. Barack Obama ganó la presidencia de Estados Unidos con un programa claramente distinto al de su rival: política fiscal redistributiva, ampliación de la cobertura de seguridad social, promoción de fuentes alternativas de energía, retiro de las tropas en Irak, diplomacia multilateral, legislación moral avanzada. El error de estos ideólogos y políticos cubanos refleja el daño cultural que puede producir medio siglo de construcción de estereotipos negativos sobre Estados Unidos en la opinión pública de un país latinoamericano. Los líderes de un país así terminan, inevitablemente, desconociendo a su vecino, ignorando que, a pesar de su hegemonía mundial, esa nación es una democracia, donde, desde las campañas por los derechos civiles en los 60 y 70 y las políticas multiculturales de los 80 y los 90, se ha creado un nuevo pacto jurídico para lograr la convivencia dentro de la diversidad.

Donde no se ha logrado ese pacto es, precisamente, en Cuba. Allí, el porcentaje de negros y mulatos rebasa el 60% de los cubanos que viven en la isla, a diferencia de Estados Unidos, donde los afroamericanos siguen siendo una minoría que no llega al 15% de la población. El poder cubano no refleja la diversidad racial, genérica, religiosa y sexual de la isla ni la existencia de una oposición y un exilio que pacíficamente defienden otra idea de gobierno. Barack Obama gana las elecciones como un político opositor, joven, negro y reformista, mientras que en Cuba el régimen está en manos de un pequeño grupo de ancianos blancos y conservadores. El contraste no podría ser mayor y, sin embargo, ambos países deberán experimentar el reajuste de unos vínculos caracterizados, en el último medio siglo, por la hostilidad y el recelo mutuos.

Obama no sólo es el primer presidente negro de Estados Unidos, sino el primero nacido después del triunfo de la Revolución Cubana y el primero en formarse políticamente después de la caída del Muro de Berlín. En propiedad, estaríamos en presencia de un político más del siglo XXI que del siglo XX, moldeado por los dilemas transversales de la sociedad posterior a la guerra fría. Su contraparte en la isla, Fidel y Raúl Castro, son, en cambio, criaturas del mundo bipolar, sujetos arcaicos que se perfilaron en la rígida contraposición entre capitalismo y comunismo. Esa asimetría de liderazgo, en vez de conformar un obstáculo infranqueable, podría actuar como incentivo a la búsqueda de un nuevo tipo de relación entre dos vecinos naturales, artificialmente convertidos en adversarios políticos.

Barack Obama llega a la presidencia sin una agenda latinoamericana. Lo poco que le hemos escuchado sobre el tema genera más interrogantes que propuestas para un hemisferio en el que asistimos al espectáculo paradójico de democracias que se consolidan y, al mismo tiempo, se exponen a nuevas amenazas. La emergencia de gobiernos de izquierda, en Brasil, Uruguay, Chile, Bolivia, Ecuador, Panamá y Paraguay, por ejemplo, en los que la voluntad de construir políticas de Estado en materia social no se da acompañada de maniobras para perpetuar a una persona, un partido o una familia en el poder, es una clara señal de consolidación de la democracia. El caudillismo, la inseguridad, el narcotráfico y la corrupción son sólo algunos de los tantos desafíos a esa gobernabilidad democrática.

La nueva presidencia demócrata y su gabinete tendrán que concebir una agenda latinoamericana. Algunas políticas de la Administración Bush -libre comercio, seguridad hemisférica, combate al narcotráfico, reforma migratoria- no deberían descartarse sino insertarse en una estrategia regional más amplia. Obama podría dotar esas prioridades de un sentido de colaboración económica y política plena, que permita dejar atrás las tensiones que genera el proteccionismo y las que todavía se heredan de las décadas anticomunistas. Una buena diplomacia de Washington ayudaría mucho a reforzar el componente democrático de las nuevas izquierdas y a contrarrestar la tendencia autoritaria y antiamericana que, en la primera mitad de esta década, promovieron La Habana y Caracas a costa de los excesos de Bush.

Si el nuevo presidente honra sus compromisos de campaña eliminará las restricciones a viajes y remesas que la pasada Administración aplicó contra el Gobierno cubano. Esa medida, incorporada a una estrategia de negociación del levantamiento del embargo comercial a cambio de pasos concretos a favor de la democratización de la isla, como el excarcelamiento de todos los presos políticos y la concesión de garantías para la actividad opositora podría ser el punto de partida de una importante distensión de las relaciones entre Cuba y Estados Unidos. El viejo diferendo, herencia incómoda de la guerra fría y motivo permanente de desencuentros entre Washington y la comunidad internacional, debería llegar a su fin en los próximos años con una transición pacífica a la democracia en la isla.

El liderazgo del Departamento de Estado que designe Obama tendrá que tomar cartas en el asunto. A diferencia de la Unión Europea y América Latina, Estados Unidos no puede dar un cheque en blanco a Fidel y Raúl Castro, dos gobernantes que durante medio siglo han sostenido una confrontación de la hegemonía de Washington. Lo que sí puede hacer la nueva Administración es concertar multilateralmente su política hacia la isla, con aliados europeos y latinoamericanos, procurando siempre que cualquier negociación con La Habana incluya medidas tangibles a favor de libertades públicas en Cuba. El autoritarismo cubano no sólo es algo que sufre la población insular, ansiosa por entrar, finalmente, al siglo XXI, sino causa de conflictos en una región frágilmente democrática.

¿Qué interés pueden tener las democracias europeas y latinoamericanas en que en Cuba persista un régimen de partido único, economía de Estado e ideología marxista-leninista? Con un régimen así son siempre más difíciles las relaciones comerciales y diplomáticas y un régimen así siempre alentará valores antidemocráticos en el mundo. Los Estados Unidos de Barack Obama pueden ayudar, si se lo proponen, a que la democracia cubana no sólo sea un deseo de miles de opositores y millones de exiliados, excluidos de la vida pública de su país, sino interés de la inmensa mayoría democrática del mundo. Para ello, Washington tendría que asumir la cuestión cubana como algo más que un asunto doméstico, relacionado con los votantes del sur de la Florida.

Cuba sigue siendo la más clara alternativa autoritaria de la izquierda latinoamericana actual. La Venezuela de Chávez tiene mayor poder económico, pero el régimen político bolivariano no ha desmantelado el pluralismo político, ni la economía de mercado ni la esfera pública. El problema cubano tiene que ver, por tanto, con la consolidación y el perfeccionamiento de la democracia en el hemisferio. Si el Gobierno de Raúl Castro, como parecen transmitir las últimas negociaciones de su cancillería con España, la Unión Europea y México, quiere relacionarse con todas las democracias del mundo, estén gobernadas por la izquierda o por la derecha, nada más lógico que esas democracias impulsen la democratización de su interlocutor caribeño.

Los protagonistas de esa transición no serán, como sabemos, Washington, Bruselas, Madrid o Brasilia: serán los demócratas cubanos del siglo XXI, provengan de la oposición, el Gobierno o el exilio. Pero mientras más consenso internacional genere un cambio pacífico de régimen en la isla más rápido podrán avanzar sus impulsores. La oportunidad que se abre con el nuevo presidente de Estados Unidos no debería ser desaprovechada por la típica intransigencia de quienes, desde La Habana o Miami, ven amenazados sus intereses y, como tantas veces en el pasado, se aprestan a dinamitar cualquier plataforma de distensión. Medio siglo ha sido tiempo más que suficiente para vivir el drama de un país dividido y paralizado.

Rafael Rojas es historiador cubano, exiliado en México.
Radical Rebelde Revolucionário

Cuba Libera a Venda de Computadores e Eletrônicos

Até semana passada, em Cuba, para se ter um computador era preciso ter uma permissão especial do governo para importá-lo - não havia computadores à venda na ilha - e, mesmo assim, você precisava dar o preço do computador em taxas pro governo. Dado que o salário médio de um médido é de vinte dólares por mês, só quem tem dinheiro pra comprar computador são as pessoas que ou trabalham com turistas ou têm parentes no exterior. Em casos especiais (professores, pesquisadores, autores consagrados, etc), o governo dá uma ajudinha.

Pois bem, a partir desse semana, como parte do pacote liberal do Raul, está liberada a venda de computadores. Vejamos o que mais liberam.

Para saber mais sobre Cuba:

Radical Rebelde Revolucionário

Liberal Libertário Libertino

Meu outro blog está de casa nova, agora no Interney Blogs. Por favor, atualizem links, bookmarks e feeds RSS, e não esqueçam de ajudar a divulgar.

Liberal Libertário Libertino - http://www.interney.net/blogs/lll

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O Problema da Moradia em Cuba

Matéria de hoje no Granma admite o sério problema da habitação e promete 50 mil novas casas ainda esse ano. Um dos capítulos do meu livro sobre Cuba, Radical Rebelde Revolucionário, é justamente sobre isso: "Quem Casa Quer Casa". Abaixo, um trechinho:

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Paseo Marti, área nobre de Havana Velha, dez da manhã de sábado. Há uma pequena multidão na rua, carregando cartazes, conversando. Dêem uma olhada nas fotos abaixo. Eu penso: ué, manifestações políticas públicas não são proibidas? Curioso que sou, puxei um cubano e perguntei o que estava acontecendo. Tratava-se de uma feira informal de permuta de imóveis. (...)

Real Estate Fair

O governo costumava construir conjuntos habitacionais – pra lá de onde Trotsky perdeu as botas, horríveis, enormes, estéreis, parecendo ter sido projetados por um alemão oriental autista que estagiou com Oscar Niemeyer – mas agora, sem dinheiro dos russos, nem isso.

Se você quer sair da casa dos seus pais e morar sozinho, desista. Se você se casou e quer ir morar no seu cantinho com seu esposo, esqueça. Em Cuba, a família é como a Máfia: ninguém sai. Só morto.

De todos os problemas que o país enfrenta, talvez a falta de moradia seja o mais desesperador.

Real Estate Fair at the Paseo

Ao contrário de Nemesia, que torce para a sogra escorregar no chuveiro, Francisco não parece ter pressa para a morte da mãe. Provavelmente por amor. Talvez por dignidade humana básica. Talvez porque tanto Francisco quanto Tobias têm seus próprios quartos em suas casas. Talvez porque, de qualquer modo, não seria politicamente prudente que morassem juntos. Francisco está preocupado com outra morte: a de Fidel e o caos generalizado que, segundo ele, se seguirá. (...)

Chegamos num ponto da história em que mesmo os maiores inimigos de Fidel receiam sua morte: pelas esquinas de Havana, trocam-se cenários apocalípticos pós-Fidel como, em outros lugares, trocam-se fofocas sobre Angelina Jolie e Brad Pitt. Fica-se com a impressão de que a morte do Fidel trará nada mais nada menos que o fim da civilização. Dado o que aconteceu na Rússia, não é um temor infundado. (...)

Na Roma Antiga, o poder dos patriarcas era absoluto e incontestável. Enquanto seu pai fosse vivo, mesmo que você tivesse cinqüenta anos e fosse senador, ele podia te matar – legalmente. Ninguém ficaria espantado de saber que, nessa sociedade, parricídio era mais comum que restaurante vegetariano na Califórnia. Para muitos homens ambiciosos, matar o pai era o primeiro e mais necessário passo da vida pública.

E eu fico pensando cá com meus botões qual deve ser a taxa de familicídio na Cuba de hoje. Quantos jovens apaixonados não matariam sem hesitar uma avó gosmenta para viver juntos em seu ninho de amor? Chega a ser romântico, um ato extremo que selaria a união dos pombinhos: matamos primeiro minha mãe ou a sua, meu amor?

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Radical Rebelde Revolucionário

Para ler o texto completo, e outros mais, compre o ebook Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas, à venda pela internet por apenas R$20.
Nesse natal, dê um vira-lata de presente

A Esquerda e a Direita Odeiam Meu Livro sobre Cuba

Radical Rebelde RevolucionárioNa comunidade Comunistas, Cuba os Espera, o meu livro é visto como pura propaganda comunista, sou esquerdóide, sociopata, comunista de butique, odeio os americanos mas não sei viver sem eles:
Cara, eu não costumo xingar pessoas de uma forma geral, mas para você eu vou abrir uma exceção: você é um idiota. Mas o que esperar de um esquerdóide? Um sociopata? Nada além disso [...] Cuida da tua vida, cara. [...] Você (como todo esquerdóide de bosta) apóia a violência contra pessoas que tiveram mais capacidade de ascender na vida e por isso tem mais posses. E como todo sociopata que se preze, você não dá a mínima para a vida humana. Cara, quer nos fazer um favor? Se mata!

sua puta louca , porra nao trabalhe ta , e nao guarde dinheiro , porque se algum camarada revolucionario ficar sabendo , ele vai te quebrar u peito de viado ese que vc tem com um facao pra dar de comer a seus filhos . quanta gordura(do macdonals capitalista ) poderiamos tirar do teus peitos afeminados ou da tua barriga abalheinada " porra daria pra freir muita carne e muitos ovos , suficentes pra alimentar tuda africa . puta louca vicha , vc entao so pega fusil pela libertade de exprecao , porra vai pa cuba a lutar pela libertade de exprecao de um povo que a 50 anos sufre pelas loucuras de uma velha vicha louca que vc revolucionariamente aceitaria dar u cu. vai lutar porra y nao fale merda . se nao luta pelos oprimidos , pelo menos fas algo se bota uma bomba nu peito y mata muitos americanos imperialistas ( que vc tanto odeia) . sabe porque vc nao faz , pois porque vc e un covarde que so fala merda comunista de boutique .escreve merda mas nao pode viver sem u capitalismo. vai se fuder sua puta louca nao fale tanta merda e fas algo (so pra que alguem te mate sua merda e o mundo se libere de uma barata como vc)
Enquanto isso, na comunidade Cuba, eu sou anti-comunista, estou claramente promovendo uma campanha anti-Cuba, meus textos parecem que saíram do MidiaSemMáscara e devo estar querendo me promover pra alguma Olaveti:
Aliás creio que nesta comunidade não é o lugar para um "jormalista" vir fazer propaganda contra Cuba!! [...] Nitidamente, ele [o meu livro] destina-se a divulgar informações que não são verdadeiras, sob um viés extremamente mal intencionado sobre Cuba e talvez bem intencionado para alguém que deseja lucrar $$$ com isso.

Seu blog é interinamente parcial, parecendo o "midiasemmascara", mas como já foi dito, mais engraçado. ... de baixa qualidade, tanto no conteúdo quanto na parte gráfica, provavelmente está querendo promover seu livro recém lançado pra alguma Olaveti.Radical Rebelde Revolucionário

Já li coisas parecidas em sites como o “Mídia sem Máscara” e outras merdas que existem por aí. Como o Ricardo falou os seus textos estão parecendo obras de ficção, não condizem com a realidade. Infelizmente, você acabou caindo naquele tipo de visão cara aos direitistas, onde os preconceitos ideológicos falam bem mais altos do que a verdade dos fatos. [...] Alex, não sinta vergonha de expressar suas opiniões. É bem mais fácil você admitir que á anti-comunista do que ficar falando que o seu livro é apenas um "relato de experiências pessoais".

Olha, a idéia do blog é propagar idéias através dos textos. Para mim, é óbvio que o negócio é campanha contra Cuba. Li vários dos textos e não consigo ver uma visão positiva, é crítica em cima de crítica. Usa-se um suposto exemplo para falar de uma "polícia repressora e racista". Um suposto apartheid que não existe. E por aí vai. Felizmente, para cada um que denigre Cuba, há mil que a defendem.
Se quiserem, cliquem nos links e vão lá pra jogar lenha na fogueira.

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Bem, amigo leitor, acho que está na hora de comprar o livro e decidir por si mesmo, não? Ou quer deixar esse povo discutindo sozinho?

O Que a Imprensa Cubana Tem a Nos Ensinar

Radical Rebelde RevolucionárioEu leio 5 jornais por dia: O Globo, pra saber o que está acontecendo no Rio, minha terra; o Times-Picayune, pra saber o que está acontecendo em Nova Orleans, onde moro; a CNN, pra saber o que está acontecendo no mundo; o Christian Science Monitor, pra saber o que está acontecendo no mundo em mais detalhes, uma assinatura que foi presente de um amigo leitor; e, por fim, o Granma, pra saber o que o Fidel quer que os cubanos saibam.

Sou libertário. Minha liberdade de expressão é das poucas coisas que eu pegaria num fuzil pra defender. O Granma, convenhamos, é patético enquanto jornal. Mas- Entretanto- Vou confessar- Hoje, depois de ler na CNN sobre o mais recente massacre diário nos Estados Unidos, eu me peguei pensando que a imprensa ocidental tem algumas coisas a aprender com o Granma.

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What the Western Press Has to Learn from Cuban Press

Todos os jornais cubanos são editados pelo governo: o maior, o Granma, é o informativo oficial do comitê central do Partido Comunista, oito pagininhas diárias em formato tablóide que todo mundo lê. A linha editorial do Granma, e da imprensa cubana de modo geral, está candidamente descrita neste trecho do verbete “Periodismo” do Dicionário de La Literatura Cubana:
El triunfo de La Revolución no sólo determinó la desaparición paulatina de los órganos de expresión de la burguesía, sino significó la irrupción de nuevas formas de encarar las tareas periodísticas y, por ende, eliminó de la prensa revolucionaria – expresión de los intereses de la clase proletaria en el poder – los falsos, insidiosos y desinformadores comentarios de las agencias de prensa del mundo capitalista, así como las crónicas rojas y sociales, los artículos y comentarios insulsos, las abundantes páginas destinadas a anuncios clasificados y comerciales, típicos de la sociedad de consumo y, lo que es más importante, el anticomunismo y las falacias de la llamada “libertad de expresión”, proclamada como una de las bases de la democracia representativa. A la vez, la Revolución facilitó el surgimiento de una nueva tónica en la información, que ahora se basa en las cuestiones de más interés para nuestro pueblo, en las cuestiones que reflejen los avances y logros en los diversos campos del quehacer revolucionario: la defensa, la producción, la educación, los deportes, la cultura, las artes y todo tipo de nuevas tareas que la construcción del socialismo reclama de las masas trabajadoras. La difusión de las actividades del Partido – como guía del camino a seguir -, de la lucha ideológica, de las ideas marxistas-leninistas, así como la contribución al rescate de nuestros valores nacionales en las diversas esferas y la divulgación de los éxitos alcanzados por nuestra Revolución, tanto interna cuanto externamente, han sido también logros fundamentales de la prensa en el período revolucionario (II, 774)
Outro dia, no Brasil, ouvi alguém dizendo como seria bom se os jornais só dessem boas notícias. Bem, deveriam ler o Granma. Só tem boa notícia, os tais “avances y logros en los diversos campos del quehacer revolucionario”. Má notícia, só se for do inimigo. Quando houve o massacre da Virgínia, os jornalistas cubanos quase gozaram, escrevendo longos artigos sobre a violência descontrolada nos Estados Unidos e coisas assim, mas aí o objetivo é político, claro. Não é o crime pelo crime, pelo prazer sanguinolento da fofoca: é o crime pelo prazer sanguinolento de ver o estilo de vida do inimigo indo por água abaixo.

O verbete citado descreve precisamente as linhas editorais do jornalismo cubano: noticiar crimes, por exemplo, não está entre as tarefas de uma imprensa revolucionária. Poderia haver um serial-killer solto em Havana, com havaneiros tropeçando em corpos para chegar à banca de jornais, e não haveria nem uma linha sobre isso no Granma.

E, se alguém reclamasse, o editor provavelmente retrucaria, sem uma ponta de cinismo: e qual seria a função social disso? De que modo noticiar crimes ajudaria no triunfo da Revolução?

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E pensem aqui junto comigo: afinal, sejamos sinceros, qual é mesmo a função social do noticiário policial? Ou qualquer função que seja? Quem lucra com a cobertura sanguinolenta de cada crime e cada massacre? Quem é que perde com a glamurização do loner with a gun?

Não, não estou defendendo uma solução cubana. Quero os nove dedos do governo longe da imprensa livre brasileira. Mas, se os veículos de mídia tem um pacto entre si de não noticiar suicídios, por que não estender o pacto para massacres de modo geral? Por que não noticiar esses crimes, quando muito, nos fundos do jornal? Por que não combinar uma anti-glorificação proposital dos criminosos?
"Zé das Couves, conhecido em sua vizinhança como "melecão", era um completo zero à esquerda. Seu vizinho, Fulano de Tal, confirma que ele era um desempregado que não comia ninguém: "Morou no meu lado seis anos e a única mulher que entrava aí era a mãe dele, e mesmo assim não visitava muito. Acho que até ela sabia que esse puto nunca daria em nada." Sua atuação no recente incidente [nada de termos pseudogloriosos como "massacre"] só comprova a previsão, etc"
Naturalmente, em uma democracia, sempre haveria tablóides criminais pra se espremer e sair sangue, mas se somente a grande imprensa parasse de babar ovo de assassino já seria uma grande avanço.

Que Ayn Rand me perdoe e que Tutatis não deixe o céu cair sobre minha cabeça, mas a imprensa ocidental bem que poderia aprender um pouco com as prioridades do Granma.

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Se você se interessapelo assunto, tem um capítulo só sobre os meios de comunicação cubanos, e muito mais, no meu livro "Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas".

Radical Rebelde Revolucionário

Piadinha Cubana



Cartaz visto em Havana: "Se ha perdido un loro. Se recompensará a quien lo devuelva. Su propietario aclara que no comparte, en absoluto, sus opiniones políticas".

Decadente Democracia Burguesa

Embaixador cubano na ONU defende as virtudes da democracia social cubana contra o pensamento único da decadente democracia burguesa que o Ocidente quer impor ao mundo.

Afinal, o que é democracia?

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Ebook "Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas" à Venda

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Tentei ver Cuba sob um novo ângulo, com um olhar ao mesmo tempo generoso e crítico. Em cada foto, há uma história. Em cada crônica, um pequeno drama, uma pequena alegria.

A maior interatividade do formato ebook deu origem à uma experiência interessante: cada post deste blog corresponde à uma crônica do livro, permitindo aos leitores comentar seus textos favoritos, fazer perguntas e pedir maiores esclarecimentos. Naturalmente, quem ainda não comprou também pode acessar o blog, ler os trechos on-line e participar da conversa nos comentários.

Para navegar pelas crônicas, basta clicar nos links da coluna da direita. Alguns textos estão disponíveis integralmente, a maioria não. Tomara que vocês gostem e queiram ler mais.

Agora, você pode ou comprar o livro ou ler o que outras pessoas já acharam dele.

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Eleições em Cuba

Elections in Cuba

Domingo agora foi dia de eleições gerais em Cuba. 8 milhões de eleitores elegeram cerca de 15 mil representantes municipais, dando início a um processo complicadíssimo que terminará determinando o futuro político do país: se o poder continuará nas mãos doentes de Fidel, se será transmitido permanentemente a Raul ou a algum terceiro.

Elections in Cuba
(as charges do Granma me lembram umas tiras das Cobras, no auge do sucesso do Plano Cruzado - isso foi em 1986, crianças, antes do celular e da água encanada - e que sempre terminavam com o mesmo bordão: "humor a favor é fogo!")

Para quem quiser se divertir, a cobertura do Granma é sempre engraçada. Para os curiosos, vale a pena ler as três reportagens abaixo, do El País, jornal que tem a melhor seção internacional do mundo. O processo eleitoral cubano é completamente diferente dessas "falsas democracias burguesas" que existem por aí. Não deixem de ler a primeira:
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Cuba Nega Visto de Entrada a Deputados Brasileiros

Radical Rebelde RevolucionárioNossos ilustres deputados, incluindo aí o gramático comunista Aldo Rebelo, iriam entrevistar os pugilistas cubanos deportados do Brasil em agosto, para averiguar exatamente o que aconteceu. Fidel, entretanto, aquele ilustre democrata, não deixou. A história continua cada vez mais mal contada.

Todo biscoito e frango que vi vendendo em Cuba era brasileiro. Será que devemos promover um embargo e deixar Cuba sem coxinhas Rica e biscoitos São Luiz? Ou quem sabe fazer uma diplomacia de canhoneiras e mandar o porta-aviões São Paulo pra visitar a Baía de Havana?

Leia também A Deportação dos Atletas Cubanos

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Levando o Cinema ao Povo

   Morango e Chocolate Não é nem que sou contra o governo dar dinheiro ao cinema. O que mata é o cidadão custear um filme e, depois, ainda ter que pagar R$18 pelo ingresso - e isso se viver nos grandes centros, claro. A população carente do interior, que não tem acesso ao cinema, continua sem ter - apesar de pagar por ele!

Em Cuba, o ICAIC ( Instituto Cubano de las Artes y la Industria Cinematográfica) desenvolveu um projeto de Cine Móvil: um ônibus, dois funcionários. De manhã e de tarde, exibiam os filmes nas escolas. À noite, nas praças das cidades do interior. A história é contada no documentário curta-metragem Por Primera Vez (1967), de Octavio Cortazar, que mostra as reações dos camponeses ao assistir seu primeiro filme: Tempos Modernos, de Charles Chaplin. (Abaixo, o documentário completo.)



Reparem só: eu não sei nada sobre esse projeto. Não pesquisei o assunto. O documentário foi pago pelo governo cubano pra glorificar um projeto do governo cubano, então já é suspeito por definição. Pouco importa.      Guantanamera

O projeto é viável, não é necessário uma ditadura comunista para implementá-lo e o governo do Fidel teve o grande mérito de, no mínimo, pensar no assunto.

   Buena Vista Social Club Com o dinheiro que o governo enterra em UM ÚNICO filme de filhinho de banqueiro sobre o mordomo do papai, quantos ônibus não poderíamos colocar levando cinema a quem nunca viu?

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Moral da história resumida para os que lêem um texto e não entendem sua mensagem: se o governo vai usar o dinheiro do povo, tem que levar o produto ao povo. Se não, o financiamento estatal acaba servindo apenas para aumentar a margem de lucro dos produtores e fazer hedge contra possíveis fracassos de bilheteria.

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E respondendo ao email que chegou hoje, não, eu não sou comunista.

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Radical Rebelde Revolucionário

Veja o Que Já Falaram Sobre Esse Livro

Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas tem sido entusiasticamente resenhado pela internet. Veja o que outras pessoas já escreveram sobre o livro:

Avisos, Agradecimentos & Afins

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Esse não é um livro acadêmico sobre Cuba. (Vocês vão reparar a falta de notas de rodapé.)

Esse não é um guia de turismo. (Vocês vão reparar a falta de endereços de atrações e restaurantes.)

Esse é um livro de impressões de viagem, uma tradição que começa com a História, de Heródoto, passa pelo Livro das Maravilhas de Marco Polo e desemboca, tristemente, em mim. (...)

Mais importante do que a verdade dessas informações é uma verdade ainda mais interessante: o fato de que, em algum momento, meus informantes cubanos ou acreditaram nessas informações ou queriam que eu acreditasse nelas. Seguindo ainda o exemplo do crédulo Herótodo, que foi muito melhor contador de histórias, folclorista e viajante do que propriamente historiador, eu acreditei em tudo o que me disseram e passei adiante.

Os erros e enganos vocês que desenredem depois. ¿Não é pra isso que servem os leitores? (...)

Na verdade, pensando bem, não confiem em nada, especialmente na minha narração em primeira pessoa. Esse é um livro de ficção. Nenhuma das pessoas citadas existe. Nem eu. Todos os nomes de cubanos foram tirados do romance "Cecília Valdés" (1882), de Cirilo Villaverde. Não existe nenhum país chamado Cuba, nenhum presidente chamado Fidel Castro. Sério, ¿vocês acreditaram mesmo que existia Cuba? Tolinhos.

Se tivessem o mínimo de bom senso, saberiam que a história de Cuba é impossível demais para ser verdade. (...)

Havana, junho de 2007

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Introdução a Cuba: O Período Especial e seu Apartheid

Radical Rebelde Revolucionário

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Eu queria partir direto pras crônicas, contar minhas aventuras e falar dos cubanos que conheci, mas, para que vocês possam entender as histórias, preciso antes explicar duas coisas que dominam o dia-a-dia na ilha: o Período Especial e a situação monetária. Talvez seja um pouco chato, e vai ter muito número, mas venham comigo que depois vai valer a pena.

O Período Especial e seu Apartheid

A Revolução Cubana ia muito bem, obrigado, até a queda da União Soviética, em 1991. A bolha artificial de prosperidade subsidiada pelos russos, para manter um foco de comunismo nas barbas do Tio Sam, sumiu do dia pra noite e os cubanos tiveram que se tornar verdadeiramente auto-suficientes. Fidel colocou a economia em estado de guerra por tempo indeterminado, o Período Especial que se estende até hoje, e mandou o povo apertar o cinto. 1992 e 1993 são lembrados como os piores anos da história recente, mas agora as coisas vão melhorando. De qualquer modo, o Período Especial ainda não acabou. Tudo em Cuba se divide em antes e durante o Período Especial.

Para sobreviver, a Revolução precisou se adaptar. Em primeiro lugar, o governo começou timidamente a promover o turismo como meio de trazer divisas, o que causou uma dolarização da economia. A propriedade privada de pequenos negócios, proibida desde 1968, foi timidamente re-autorizada, especialmente em áreas de apoio ao turista. Durante mais de vinte anos, os cubanos não podiam ser donos nem da barraquinha de cachorro-quente da esquina. Surgiram então os Paladares (cujo nome vem do restaurante da Raquel na novela "Vale Tudo", de 1988), pequenos restaurantes improvisados, funcionando na casa dos seus donos, geralmente em um quarto de frente pra rua ou na sala. Para servir à crescente demanda do turista, autorizaram-se também casas particulares a alugar quartos para estrangeiros. Estou hospedado em uma dessas. Ao mesmo tempo, o governo buscou restaurar edifícios e monumentos de interesse turístico. O centro histórico de Havana, então completamente abandonado e quase em ruínas (algo como o bairro da Saúde, no Rio), começou a ser recuperado. Heresia das heresias, permitiu-se até a existência de empresas mistas, de capital cubano e estrangeiro, para a construção, restauração e manutenção de hotéis.

Mas como conciliar uma Revolução austera e estóica, baseada em auto-sacrifício em nome do bem comum, ¿com hordas de turistas brancos e gordos gastando dólares a torto e a direito? ¿Como conciliar a falta de liberdade de imprensa e restrições severas ao uso da internet e de antenas parabólicas com hordas de turistas brancos e gordos descrevendo as delícias proibidas do capitalismo? Simples: limita-se ao máximo o contato dos cubanos com eles.

("Mucho daño hizo a la conciencia social el acceso a las divisas convertibles, en mayor o menor volumen, por las desigualdades y debilidades ideológicas que creó." Fidel, em Editorial do "Granma", 18 de junho de 2007)

Nem Atlanta em 1955 era tão segregada quanto Havana em 2007. Tudo é separado. Algumas lojas que aceitam moeda forte não podem vender para cubanos e outras das que aceitam peso nacional não podem vender pra turistas. Os táxis para cubanos não podem transportar estrangeiros, e a polícia os pára rotineiramente para pedir o carnê de identidade dos passageiros. A maioria dos novos hotéis são all-inclusive, tipo Club Med, para que os turistas não tenham que sair para nada e nem, Lenin me livre, interagir com os nativos. Há praias só para turistas (as melhores) e as só para cubanos (a xepa). Um povo que durante 30 anos andou de cabeça erguida, orgulhoso de sua Revolução, da sua baixa mortalidade infantil e da sua alta expectativa de vida, dos recordes olímpicos e dos médicos voluntários, da luta anti-colonialista na África e anti-imperialista na América Latina, esse mesmo povo, hoje, não pode freqüentar as melhores praias do seu próprio país.

¿Não foi pra combater uma situação mais ou menos assim que um bando de barbudos se enfurnou na Sierra Maestra?

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Introdução a Cuba: A Salada Monetária Cubana (Texto Completo)

Radical Rebelde Revolucionário

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A Salada Monetária Cubana

Em mais um esforço para aumentar a entrada de divisas e diminuir o acesso dos cubanos a elas, o governo recentemente proibiu a circulação de dólares na ilha e criou uma nova moeda: o peso conversível, ou CUC, que hoje vale US$ 1,25 ou R$2,4. Moedas estrangeiras só podem ser trocadas por pesos conversíveis que, teoricamente, seriam utilizados por turistas em locais onde apenas turistas pudessem entrar.

Enquanto isso, os cubanos, cuja larga maioria ainda trabalha para a gigantesca burocracia estatal, ganham salários mínimos pagos em pesos nacionais, ou MN (moneda nacional), que não valem quase nada. Um peso conversível vale 24 pesos nacionais; um real vale 10 pesos nacionais. O salário mínimo em Cuba é de cerca de dez dólares (192 MN, ou R$19) e o máximo, para o mais alto escalão do governo, US$34 (652 MN, ou R$65).

Teoricamente, os cubanos não são proibidos de usar pesos conversíveis, mas vejam só: um Paladar vagabundo, esses restaurantes caseiros que falei, vendem um prato-feito de arroz, feijão, porco e vegetais, com um refrigerante, por 10 CUC (R$24). As bibliotecárias da Biblioteca Nacional José Martí, que tanto me ajudam, ganham por mês o equivalente a 16 CUC (R$38). Esse PF está completamente fora do seu alcance. E os restaurantes para turistas são infinitamente mais caros.

Mas nem essa prática funciona na prática. Por um lado, muitos estrangeiros espertos ou duros, como este que vos escreve, convertem seus dólares em pesos nacionais e freqüentam os estabelecimentos comerciais só para cubanos, para comprar produtos a preços irrisórios. E, por outro, cubanos que ou têm parentes no exterior que lhes mandam dólares (quase todos) ou que arrancam dólares dos turistas por trabalhar em turismo (muitos, pois hoje é a maior indústria do país) acabam freqüentando os estabelecimentos comerciais que aceitam divisas e comprando, apesar dos preços altos, produtos que não estariam disponíveis em moeda nacional. Ou seja, a salada monetária criada pelo governo cubano não atinge seus mínimos objetivos e serve apenas para criar um caos monstruoso.

Deixa eu dar uma idéia de preços pra você. Primeiro, uma tabelinha de moedas:

1 USD = 0,80 CUC
1 CUC = 1,25 USD
1 CUC = 2,4 R$
1 CUC = 24 MN
1 R$ = 10 MN

No cinema, um ingresso pra turista custa 2 pesos conversíveis (2 CUC = R$ 4,8) e, pra cubano, 2 pesos nacionais (2 MN = R$ 0,20). Eu, se ficar de boca fechada, dou meus dois pesos nacionais pra bilheteira e compro como cubano. Uma passagem de guagua (pronúncia: uáua), o tipo de ônibus mais barato que pego para ir à biblioteca, custa 20 centavos de peso nacional (0,20 MN = R$ 0,02). Os táxis pra turistas cobram preços internacionais: uma corrida do centro de Havana para o aeroporto sai por 25 pesos conversíveis (25 CUC = R$ 60). Já nos táxis só pra cubanos, carros velhíssimos, quase caindo aos pedaços, sem letreiros de táxi (você tem que saber reconhecê-los), qualquer corrida custa 10 pesos nacionais (10 MN = R$ 1), mas eles fazem lotação, os passageiros andam apertados como sardinhas e, se você não estiver indo pra mesma direção aproximada dos outros, não te levam. Pior ainda, são proibidos de levar estrangeiros. A polícia os pára regularmente e pede o carnê de identidade de todo mundo. Eu, que tenho cara de cubano, nunca tive problema, mas vários motoristas se recusaram a transportar a Annie, loira de olhos azuis.

No agromercado dos cubanos, eu compro um abacaxi simplesmente maravilhoso por 10 pesos nacionais (10 MN = R$ 1) e já é o meu almoço. Como sou pobre, tenho comido em barraquinhas de rua, o equivalente cubano ao joelho com refresco de caju. Um sanduíche de rua, geralmente cachorro quente (pan con perro), hambúrguer (pan con hamburguesa), sanduíche de croquete (pan con croqueta; não recomendo, confie em mim), de lombo (pan con pierna ou pan con lechon) ou de presunto (pan con jamon), mais um refresco de abacaxi ou goiaba, fica entre 2 e 10 pesos nacionais (2-10 MN = R$ 0,20-1), dependendo do nível da podreira. Muitas vezes, literalmente o mesmo sanduíche vendido pela loja atrás da barraquinha custa para o turista até cinco pesos conversíveis (5 CUC = R$ 12).

Pan con Lechon

Em nenhum lugar do mundo, a informação tem tanto valor ou a diferença entre os preços de quem sabe e quem não sabe é tão grande. Um refrigerante em lata Ciego Montero, por exemplo, uma marca cubana surpreendentemente boa, custa 10 pesos nacionais para os cubanos (10 MN = R$1) e dois pesos conversíveis para os turistas (2 CUC = R$ 4,8). A mesmíssima latinha.

Mesmo as lojas que aceitam divisas não são tão caras assim, embora pareçam caras comparadas com as lojas para cubanos. Eu pago um peso conversível por um saco de dez pães (1 CUC = R$ 2,4) e dois pesos conversíveis por um garrafão de cinco litros de água mineral (2 CUC = R$ 4,8). Menos do que no Carrefour onde faço minhas compras no Rio.

Na verdade, essa loucura monetária teve duas interessantes conseqüências. A primeira, intencional, é tornar Cuba o lugar do mundo onde o dólar vale menos. Além de o governo manter o peso conversível artificialmente alto em comparação com o dólar, qualquer conversão de dólar em peso conversível é sobretaxada em 20%. ¿Por quê? Porque sim, ué. Eu trouxe mil dólares em dinheiro e vou levá-los inteirinhos de volta ao Brasil. Estou sacando reais diretamente do meu cartão de crédito brasileiro e convertendo-os em pesos, o que sai muito mais barato. Já Annie, minha companheira de viagem norte-americana, que não tem como fazer isso, leva uma facada, com direito a torcida e tudo, a cada vez que troca seus suados dólares.

A outra conseqüência foi com certeza não-intencional, mas seríssima: erodir ainda mais a pobre Revolução. Antes do Período Especial, ter parentes na diáspora era uma vergonha pública: primos em Miami bastavam para rotular alguém de traidor em potencial e barrar sua carreira nas áreas mais sensíveis do governo e das forças armadas. Já hoje, os revolucionários 100% leais, que nunca sofreram o vexame de ter um parente abandonando Cuba e indo viver entre os gringos (ou seja, que não tem ninguém no exterior que lhes envie dólares), que trabalham fielmente para o governo defendendo os ideais socialistas da Revolução (ou seja, sem acesso às gorjetas em dólares que enriquecem os garçons e camareiras do ramo turístico), são os mais pobres e miseráveis dos cubanos, os únicos ainda restritos exclusivamente às pobres e miseráveis lojas que aceitam pesos nacionais, onde não se encontra nem papel higiênico.

Em outros tempos, os cubanos que saíam do país eram pejorativamente chamados de gusanos (verme, larvas) e, muitas vezes, as famílias nem queriam mais saber deles. Depois do Período Especial, entretanto, quando voltam carregados de dólares, não são mais larvas, são borboletas, paparicados por todos os familiares que antes os esnobaram.

Antes, gritavam aos exilados: "¡traidores!". Hoje, o grito é outro: "¡trae dólares!"

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Annie, Uma Brasileira

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Cuban Capoeira Player, His Apprentice and Annie at the Capitolio Nacional

Annie é completamente destemida: se mete nas maiores roubadas sem o menor receio, com aquela tranqüilidade de quem sabe que, aconteça o que acontecer, vai saber se virar. Talvez mais interessante, Annie não tem aquela habilidade nata feminina de dizer não, de mandar o cara passear, de lhe dar um pé na bunda. Estou acostumado a andar com mulheres que, quando são assediadas, despacham o cara no ato. Annie, ao contrário, se deixa infinitamente alugar. Algumas vezes, quando estava visivelmente desinteressada ou desesperada, eu ficava esperando sua saída, um toco, uma desculpa (Alexandre, a gente não tinha aquele troço pra ir daqui a quinze minutos?), essas coisas que mulher faz, e nada. Deve ser por isso que os brasileiros de Nova Orleans exploram a menina. Brasileiro é um povo sem vergonha mesmo.

Annie, El Malecon and the Ship

Em cada lugar, Annie era imediatamente cercada por um enxame de machos no cio, tanto por ser mulher bonita dançando sozinha, quanto estrangeira e fonte potencial de dólares. E Annie animadamente dava papo pra todos e não rejeitava ninguém, até que percebiam que não arrancariam dela nem dinheiro nem beijos e iam buscar outras mulheres mais fáceis. Alguns, entretanto, não desistiram nunca e seguiram Annie pelas ruas de Havana até o último dia.

Annie, the Malecon, the Kids in the Water and the Fortaleza

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Fumar em Cuba (Texto Completo)

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Voei para Cuba lendo o "Contrapunteo Cubano del Tabaco y del Azúcar" (1940), de Fernando Ortiz, uma obra-prima ao mesmo tempo acadêmica e literária, linda, belíssima, original, explicativa, poética. Algo assim como o "Casa-Grande & Senzala" cubano. O livro em si é pequeno, tem menos de cem páginas, mais outras 500 de apêndices e complementos. Ortiz traça um paralelo entre o açúcar e o tabaco em Cuba, mostrando como o cultivo de cada produto engendrou uma cultura totalmente diferente, desde a economia até a organização do espaço. O autor não esconde sua predileção: para ele, o açúcar é conservador, reacionário, capitalista, monopolista, enquanto o tabaco é rebelde, individualista, libertário, revolucionário. O livro é uma ode de amor ao tabaco do começo ao fim. Quando pousei no Aeroporto Internacional José Martí, eu estava simplesmente seco por um bom charuto.

La Envidia Es La Peor de Todas las Brujerias

Pois bem, desembarco em Havana e o primeiro cheiro que sinto é o de charuto. Sim, Cuba é um país onde se fuma charuto dentro do saguão do aeroporto. Eu tive vontade de beijar o chão. Estou em casa.

Se você odeia gente soprando fumaça na sua cara, se não quer cheiro de cigarro na sua roupa, se acabou de parar de fumar pela qüinquagésima vez e não quer tentações, Havana realmente não é pra você. Vá visitar São Francisco, na Califórnia, uma cidade maravilhosa que me recebeu de braços abertos quando fugi do Furacão Katrina. Em São Francisco, não se pode fumar livremente nem ao ar-livre, muitas vezes nem em sua própria casa. Parece que a Câmara Municipal está prestes a aprovar uma lei autorizando o linchamento sumário de qualquer um que ouse acender um cigarro em público. Periga de ser aclamada por unanimidade.

Old Habaneros and Their Impossibly Long Cigars

Naturalmente, em Cuba, as pessoas não só fumam. Elas fumam umas toras de trinta centímetros de comprimento que parecem desafiar a própria lei da gravidade. Deus parece ter modificado a física somente para que os cubanos possam fumar seus puros. E fumam o tempo todo. Na Biblioteca Nacional José Marti (sim, o mesmo nome do aeroporto), até mesmo na sala de periódicos antigos se fuma. Lá estava eu, consultando jornais do século XIX e um cubano ao meu lado calmamente degustando seu charuto.

Até agora, o único lugar onde não vi gente fumando foi no cinema. Fui assistir "La Noche de Los Inocentes", no Cine Payret, em frente ao Capitólio Nacional. É o novo filme de Jorge Perrugoria, de "Fresa y Chocolate" e "Guantanamera", um ator que já se tornou um dos meus favoritos de todos os tempos. Diga-se a bem da verdade, ninguém fumou no cinema. Talvez porque não havia ar-condicionado e estava tão quente que bastariam uns cinco charutos acesos para matar todas as centenas de pessoas sufocadas. Ou vai ver é proibido. Mas, confesso, proibir alguém de fumar já me parece uma das atitudes mais anti-cubanas que alguém poderia ter.

Ainda assim, entretanto, não ficamos longe do fumo. O filme inteiro se passa em um quarto de hospital: ao mesmo tempo em que um jovem travesti luta pela vida depois de uma surra violenta, um policial interroga seus familiares em busca da verdade sobre o crime. E imaginem se algum deles, o detetive ou os familiares, em uma situação tão tensa como essa, verdadeiro jogo de gato-e-rato policial, deixaria de acender seus cigarros e charutos! Valha-me deus!

Eu, dependendo da minha roupa e do meu jeito, já aprendi que posso passar por turista ou por cubano. Até abrir a boca, claro - o meu sotaque me entrega. No começo, me paravam na rua a cada cinco minutos me oferecendo Cohibas e Romeus & Julieta legítimos. Agora, entretanto, já aprendi a passar por nativo. Na bodega da minha esquina, vendem uns charutos El Crédito ou Cacique por um peso cubano, ou seja, dez centavos de real, do tipo que fumam os cubanos não-membros do Partido. Tudo bem que não devem ser lá os melhores do mundo, mas se são bons o suficiente para o povo que inventou o charuto, então são bons o suficiente pra mim.

O que não se encontra em Cuba é fumo pra cachimbo. Já aprendi que não posso nem dizer que fumo cachimbo. Fumar charutos de um peso me faz ganhar uns pontos como estrangeiro esperto. Fumar cachimbo me faz perder esses pontos todos e mais alguns. Para a cultura fumante cubana, fumo para cachimbo, ou picadura, como chamam, é a xepa da xepa, o pior do pior fumo, aquele fumo ralo, esfarelado que não serviu pra ser usado nem no pior charuto. Coisa que gente ignorante que não sabe fumar, dizem.

E eu acrescento rápido: sim, era encomenda para uma amiga, veja só, que besteira, ¡achar que os cubanos fumariam uma coisa horrível dessas!

Ou, como diria o sapo, ¡coitado do jacaré!

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Sede de Informação

Radical Rebelde Revolucionário

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Todos os jornais são editados pelo governo: o maior, o "Granma", é o informativo oficial do comitê central do Partido Comunista, oito pagininhas diárias em formato tablóide que todo mundo lê. Deixa eu contar uma coisa que vocês vão achar que é mentira, mas vá lá. Em Cuba, falta tudo; quando tem, é racionado; pra comprar além da sua quota, é caríssimo - inclusive papel higiênico. Já o "Granma", subsidiado pelo governo, é diário e baratíssimo (0,20 MN = R$ 0,02). Então - vocês já entenderam, ¿né? - os cubanos, literalmente, sério mesmo, não estou zoando, compram o "Granma" pra limpar o cu. Na foto ao lado, o banheiro da casa do meu amigo Cándido: o jornal pregado na parede não é o "Granma", mas seu irmão caçula, o "Juventud Rebelde".

Government Newspaper to Wipe Ass

A linha editorial do Granma, e da imprensa cubana de modo geral, está candidamente descrita nesse trecho do verbete "Periodismo" do Dicionário de La Literatura Cubana:

"El triunfo de La Revolución no sólo determinó la desaparición paulatina de los órganos de expresión de la burguesía, sino significó la irrupción de nuevas formas de encarar las tareas periodísticas y, por ende, eliminó de la prensa revolucionaria - expresión de los intereses de la clase proletaria en el poder - los falsos, insidiosos y desinformadores comentarios de las agencias de prensa del mundo capitalista, así como las crónicas rojas y sociales, los artículos y comentarios insulsos, las abundantes páginas destinadas a anuncios clasificados y comerciales, típicos de la sociedad de consumo y, lo que es más importante, el anticomunismo y las falacias de la llamada "libertad de expresión", proclamada como una de las bases de la democracia representativa. A la vez, la Revolución facilitó el surgimiento de una nueva tónica en la información, que ahora se basa en las cuestiones de más interés para nuestro pueblo, en las cuestiones que reflejen los avances y logros en los diversos campos del quehacer revolucionario: la defensa, la producción, la educación, los deportes, la cultura, las artes y todo tipo de nuevas tareas que la construcción del socialismo reclama de las masas trabajadoras. La difusión de las actividades del Partido - como guía del camino a seguir -, de la lucha ideológica, de las ideas marxistas-leninistas, así como la contribución al rescate de nuestros valores nacionales en las diversas esferas y la divulgación de los éxitos alcanzados por nuestra Revolución, tanto interna cuanto externamente, han sido también logros fundamentales de la prensa en el período revolucionario" (II, 774)
FIlmes de EEUU

(...) Talvez vocês não tenham percebido a enorme ironia da situação. Se Cuba tivesse um povo largamente ignorante e semi-alfabetizado (como o brasileiro, por exemplo), pode até ser que engolissem tudo o que o governo diz. Entretanto, esse mesmo governo educou brilhantemente sua população no método científico, no materialismo dialético e no pensamento crítico. Ou seja, a prova de que a educação estatal funciona é justamente o fato de a população não acreditar na imprensa estatal.

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Os Jineteiros (Texto Completo)

Radical Rebelde Revolucionário

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O Valor do Dinheiro

Dos cubanos que abordam turistas nas ruas, alguns são apenas latinos extrovertidos querendo bater-papo com estrangeiros e, no processo, faturar um almoço. Muitos, entretanto, são jineteiros profissionais.

Não se pode andar cinco metros em Cuba sem ser abordado. Perguntam de onde você é, puxam conversa, são super simpáticos. Daqui a pouco, começam os pedidos: me paga um almoço, ¿uma cervejinha¿, tem uma aspirina, ¿me dá seus sapatos?, e daí pra baixo.

Muitas vezes, depois de horas me amolecendo, investindo seu tempo, trabalhando duro, o cubano inspeciona os bolsos e diz: poxa, não tenho nada, ¿você me daria vinte pesos pra uma cervejinha? Ou então, vinte pesos pro táxi de volta pra casa...

E, vejam só, eu sei que o cara não é meu amigo. Todo o tempo que passou comigo foi só pensando no meu dinheiro. E, mesmo assim, sinto uma pena imensa. Sabe por quê? Porque vinte pesos são dois reais. Dois reais, colega. Dois reaizinhos. Dá vontade de dizer: caramba, esse tempo todo que você investiu e ¿só quer dois reais? ¡Toma quatro e não se fala mais nisso!

Não há melhor ilustração da pobreza generalizada em Cuba. O malandro pensa que está me enganando e, pelo contrário, mesmo se arrancar de mim o dobro do que queria, eu é que me sinto um explorador. E, infelizmente, nem mesmo esses quatro reais eu posso dar, senão ele me recomenda aos seus colegas como um "pato fácil" e, em cinco minutos, estou rodeado por um enxame de pidões.

Esse povo, tão instruído e tão saudável, outrora tão orgulhoso do seu papel na política mundial, hoje se vende por um prato de comida.

De todas as pequenas e grandes tragédias de Cuba, essa é a que mais me entristece.

Tipos de Jineteiros e Seus Truques


É impressionante a quantidade de perguntas pessoais que um cubano consegue fazer a um completo estranho na rua. Querem saber de onde sou, quanto tempo fico, o que estou fazendo aqui, onde estou hospedado, quanto calço, tudo. Essa última não é um exemplo aleatório: eles já estão pensando em pedir seus sapatos. A primeira coisa que me pediram foram minhas havaianas. Literalmente, teve fila.

Dos vinte cubanos que me abordam por dia, uns cinco querem apenas conversar. Não pedem nada. Depois de alguns minutos, se despedem e vão viver suas vidas. São apenas latinos extrovertidos, carentes e curiosos. Os outros quinze são jineteiros.

Grosso modo, existem os jineteiros comerciais e os sexuais: os querem vender produtos e os que vendem um corpo alheio. Quando são incompetentes ou desesperados já vão logo se oferecendo: ¿Cohiba legítimo? ¿trocar dólares? ¿uma cubana caliente?

(Não sei quem cai no papo desses caras. Teria que ser muito burro. O governo, por exemplo, só permite que saiam do país até 23 charutos sem certificado de comprovação. Para mais que isso, você precisa ter um documento oficial de uma loja autorizada. Senão, o pessoal da alfândega vai fumar todos os seus habanos.)

Os jineteiros diretos são os menos problemáticos. Vendedor de rua querendo engrupir turista existe no mundo inteiro. Nem tomam muito do seu tempo. Você diz não umas cinco vezes (sim, são insistentes) e eles já vão embora: afinal, tem muitos outros patos na rua.

Os bons jineteiros não pedem nada na hora. Não querem lhe colocar na defensiva. Batem papo, contam da sua vida, trocam telefone, marcam de se encontrar outro dia. Talvez se ofereçam pra lhe levar a um bom restaurante que só cubanos conhecem, a algum lugar turístico interessante fora dos guias, a um show de música cubana, a um lugar onde você pode comprar charutos a preço de fábrica, a uma casa particular mais barata do que a sua. Naturalmente, se você quiser lhes pagar um almoço no tal restaurante, ou o ingresso para o show, ou lhes dar um charuto, claro que não vão recusar a generosidade de um turista tão simpático.

O primeiro truque é o da comissão. Sempre que um cubano lhe leva a algum lugar, ele ganha algum. É a regra. Até aí, tudo bem. Acontece no mundo todo. O problema em Cuba é que a comissão não sai do bolso do estabelecimento, mas do turista. Quando você entra no restaurante com o simpático cubano que o recomendou, sua conta fica automaticamente 50% mais cara.

Em breve, entretanto, começam as histórias tristes. Não é fácil encontrar remédios em Cuba, por isso recomenda-se aos turistas que tragam tudo o que possam precisar. Eu gastei uns duzentos reais na farmácia antes de vir pra cá. Sabendo disso, os jineteiros inventam histórias sob medida: ah, você nem sabe, estou preocupado, minha avó está muito gripada, coitadinha, mas a farmácia do governo não tinha remédio pra gripe, não sei mais o que eu faço, meu deus... E o pobre turista, comovido pelas dificuldades do heróico povo cubano, lhe chama para ir ao seu hotel e lhe dá todo seu estoque de Naldecon, prontamente revendido por uma fortuna no mercado negro.

Tem também o que eu chamo de pedido póstumo: o sujeito olha pra baixo, quase corando de vergonha, com uma expressão torturada que parece dizer ¡coitado de mim por ter que pedir isso! e balbucia: ¿me deixa esses sapatos quando for embora?; adoraria essas suas havaianas como lembrança dos nossos dias juntos; essa sua bolsa salvaria minha vida na escola, ¿poderia deixar ela comigo?; puxa, aqui em Cuba não se encontra um cortador de charuto como o seu, etc. Não querem nada agora, ¡imagina!, mas se não for fazer falta... Afinal, na sua terra, lugar de riqueza e fartura, com certeza você pode comprar outro baratinho, até melhor, e eu ficaria com essa recordação tão linda da nossa amizade... Enquanto isso, uma solitária lágrima escorre por suas faces, brilhando sob o sol.

Se eu não fosse um cínico empedernido, cortaria meu coração. Nessas horas, eu sempre me lembro do que dizia minha santa avozinha: confie em todos, mas corte o baralho.

Um Dilema Cubano

Naturalmente, a situação nunca é assim preto-e-branca.

Afinal, os cubanos realmente têm pouco acesso a bens de consumo como bolsas, sapatos, havaianas, etc. Se você fez um amigo aqui e pode deixar suas havaianas com ele, ¿por que simplesmente não comprar outras por sete reais no Brasil? Os cubanos realmente ficam doentes e sofrem de uma maciça falta de remédios. ¿O que custa dar um anti-histamínico pro seu amigo cubano?

Minha amiga Isabel passou três meses em Cuba, durante a filmagem de "Estorvo". Me recomendou que não trouxesse nada que não pudesse deixar pra trás. Annie, no seu último dia de Cuba, passou na casa de uma amiga e deixou todo seu guarda-roupa. Voltou pra Nova Orleans literalmente com a roupa do corpo.

Para um estrangeiro em Cuba, talvez o maior dilema seja justamente esse: ¿como distinguir o jineteiro que lhe vê como uma fonte em potencial de aspirina para vender no mercado negro do cubano que ficou seu amigo e está precisando de algo pra aliviar a dor da sua avozinha?

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Dionisio, Um Chileno Malandro (Texto Completo)

Radical Rebelde Revolucionário

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Dionisio, um chileno estudando música aqui em Cuba, fica profundamente irritado com as abordagens na rua, com as perguntas pessoais incessantes, com as ofertas não-solicitadas. Se sente atacado, invadido, explorado. Não dá papo. Sai andando. Às vezes, se vira e pergunta, já de punho em riste: ¿Te conheço? ¿Com que direito me pergunta essas coisas?

Ele tinha reserva em uma casa particular, mas, quando chegou, estava alugada. O solícito dono da casa pediu mil desculpas e lhe recomendou outra. Na segunda casa, Dionisio pagava 15 pesos conversíveis por dia (15 CUC = R$ 36): dez para a anfitriã e cinco de comissão para o dono da primeira casa. Ao longo dos dois meses em que Dionisio ficou em Havana, o cubano ganhou uma pequena fortuna (300 CUC = R$ 720, 36 vezes o salário mínimo) em recompensa pela falta de consideração de ter reserva com uma pessoa e alugar pra outra. Naturalmente, Dionisio só foi saber disso ao final da sua estadia, mas qualquer guia vagabundo sobre Cuba avisa sobre esse esquema já na primeira página.

Dionisio é uma figura típica. O homem se acha muito malandro e esperto ("street-wise" e "street-smart", diz ele), reclama sem parar que todos em Cuba são exploradores e jineteiros (pô, colega, se não gostou de nada e não se sente bem, faça o que os cubanos não podem fazer e ¡vá embora!), não se abre a novas amizades e não dá papo a nenhum cubano (claro, ¡pois todos querem fazê-lo de otário!), reage agressivamente aos jineteiros que lhe oferecem charutos na rua (quando bastava dizer "não" e ¡pronto!) mas, no fim das contas, perdeu 300 CUC em um esquema que já era velho quando Lot hospedou Abraão em Sodoma.

Eu até entendo a agressividade de Dionisio. É exasperante saber que uma parte da população nos vê somente como máquinas de extrair dólares. No começo, eu também não dava papo para os malucos que me abordavam na rua. Agora, tento explicar ao Dionisio que ele está perdendo uma parte importante da sua experiência cubana.

Annie me ensinou a ser mais aberto: se confio na minha capacidade de dizer "não", posso dar papo pra qualquer um. Respondo a todas as perguntas, bato papo, pergunto sobre suas vidas, sento com eles nos parques ou no Malecón - a muralha à beira-mar que protege Havana das ondas dos furacões. E, quando pedem algo que eu não posso ou não quero dar, basta dizer "não". Pronto. Ninguém precisa fechar a cara e ser grosso para não ser roubado. Annie foi muito mais assediada que ele, por ser mulher, loira, branca e gringa; nunca disse uma palavra rude a nenhum dos cubanos que tentaram exaustivamente explorá-la, e não caiu em um único golpe.

Em Cuba, pelo menos, a violência contra o turista praticamente inexiste. Existem pedidos e pedidos: se sou abordado em uma ruela escura do French Quarter ou de Copacabana por um sujeito mal-encarado que me pede vinte pratas, eu dou. Não tem nem conversa.

Os cubanos pedem, mas não há nenhuma ameaça implícita. Dionisio não entende essa enorme diferença.

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As Jineteiras (Texto Completo)

Radical Rebelde Revolucionário

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Jacques e sua Jineteira

Alguns jineteiros até oferecem putas, do mesmo modo como oferecem charutos, mas são duas coisas diferentes: jineteira não é puta, puta não é jineteira. Puta é quem transa por dinheiro. Uma jineteira, se cobrar por sexo, não é mais jineteira: é puta.

Rosa, a dona da casa onde estou, não cansa de me advertir contra as implacáveis jineteiras. Morre de medo de eu trazer uma jineteira pra casa e ela fugir com meu dinheiro, meu passaporte e meu computador - e talvez minha honra. Conta uma história de horror atrás da outra, casos exemplares de estrangeiros bobos que sofreram nas mãos de cubanas perversas. Por exemplo, o pobre e inocente francês Jacques e sua malvada jineteira Adela.

Jacques era francês, setenta anos, empresário. Vinha a Cuba três ou quatro vezes por ano, sempre por um mês. Em uma de suas viagens, se apaixonou por Adela, uma sinuosa mulata cubana de vinte e poucos:

Você não imagina, Alexandre, ¡como o homem era devotado! ¡Fazia tudo por ela! Cada vez que vinha da França, trazia uma mala de roupas, perfumes, comidas exóticas, presentes. Mandava cem euros por mês. Comprou um computador pra ela. Levava Adela para os melhores restaurantes de Havana - e ela ainda dava um jeito de conseguir comissão em cima do coitadinho. Nesse meio tempo, enquanto ele estava na França, ela aproveitava pra dar pra todos os homens de Havana. ¡Um absurdo! Até que arranjou um outro turista e não quis mais saber dele. Jacques ficou aqui semanas, de coração partido, ¡chorando no meu ombro! ¡Pobrezinho!

Mas ¿quem estava jineteando quem? Rosa ficava horrorizada de ver Adela se gabando para as amigas cubanas do velho francês broxa que lhe mandava cem euros por mês, mas eu fico imaginando outra conversa:

Vocês não sabem como é fácil! Pra começar, eu mando uma merreca por mês pra ela ficar feliz, menos do que custaria um jantar com bom vinho mais teatro em Paris. Então, antes de embarcar pra Cuba, peço pra minha secretária passar no saldão da Galeries Lafayette e comprar as roupas da última estação, os perfumes mais baratos, meia dúzia de latinhas de foie gras, uns espelhinhos, e pronto. Vocês precisam ver a cara dela quando abre a mala. Parece que é um tesouro. Depois, a gente transa a noite toda. E ela não é que nem essas putas frias fedidas do Bois de Bologne, não. Ela faz com amor, com calor, com ardor. Sério, mulher latina é o máximo, vocês deviam arranjar uma também. Quem diria que, depois dos setenta, ¡eu ainda iria ter uma mulher dessas!

Se Adela só se aproximou de Jacques atrás dos seus euros, Jacques também só se aproximou de Adela atrás de sua sensualidade latina, de sua juventude quente, de sua bunda de mulata. Qualquer relação humana, desde parceria comercial até amizade, só funciona quando ambas as partes estão obtendo algo que desejam. É sempre ida e volta. Senão, caímos naquela falácia tão brasileira de achar que existe corrupto sem corruptor, homossexual passivo sem ativo.

Mas Alexandre, responde Rosa, e as semanas que ele ficou aqui desolado, ¿chorando no meu ouvido?

Olha, das duas uma: ou ele enganou a si mesmo, esqueceu as regras do jogo e se deixou acreditar em amor verdadeiro a essa altura do campeonato, ou, mais provável, foi apenas a dor normal do pé na bunda. ¿Quem nunca perdeu ninguém? O outro turista deveria ser mais novo, mais bonito, mais rico, menos broxa. Eu bateria no ombro de Jacques e diria: calma, velho, na próxima esquina tem outra cubana quente, gostosa e precisando dos seus euros. Bola pra frente e Viagra na veia.

Tenho uma amiga brasileira que diz sinceramente não entender porque cargas d'água ela sairia com um homem que não lhe pagasse tudo. Pra ela, isso não faz o menor sentido. Ora, se for pra eu mesma pagar, saio sozinha ou com minhas amigas.

Em Cuba, seria tachada de jineteira. No Brasil, é somente uma mulher à moda antiga.

Somos Todos Jineteiros

Agora, finalmente, sei como se sente uma mulher bonita.

Sei como é a sensação de não poder andar daqui até ali sem ser abordado por alguém que eu não conheço, de intenções duvidosas. Sei como é a sensação de não poder sentar quieto num banco de praça ou num bar sem alguém sentar do meu lado de papinho-furado, me perguntando quem eu sou, o que faço ali, qual é meu signo. Sei como é a sensação de ter que decidir em meio segundo se é apenas um cubano extrovertido com quem eu quero bater-papo ou se é um jineteiro pentelho que eu quero despachar. Sei como é a sensação canalha mas tentadora de calcular se consigo tirar dele o que eu quero (no meu caso, umas dicas interessantes, no dela, um drinque, um almoço) sem ter que necessariamente lhe dar o que quer (meus dólares, um beijinho, sexo).

Ser uma mulher bonita é ser jineteada todo dia.

Quando eu abordo uma cubana na biblioteca pra saber o que está estudando, poxa, que interessante, ¿quer tomar um café comigo ali na esquina?, ¿quem sabe me deixar beijar seus pés?, qual a diferença disso pro cubano que me aborda na rua, me pergunta de que país eu sou, ¿Brasil?, que legal, adoro o Brasil, ¿você quer charutos?, ¿por que não vamos pro restaurante do meu amigo aqui perto conversar?

¿A mulher que se aproxima de um turista porque vê nele uma fonte possível de dinheiro fácil é diferente do turista que se aproxima da nativa porque vê nela uma fonte possível de sexo fácil? ¿Quem é o jineteiro? ¿Quem está jineteando quem? ¿Quem está enganando quem? ¿Tem alguém enganando alguém?

Somos todos jineteiros.

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Abacaxis

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Na Antiguidade Clássica, a tática militar da infantaria era simples e mortal. O soldado carregava sempre uma escudo, uma arma para atirar e outra para perfurar: quando se aproximava do inimigo, atirava sua lança para criar confusão e avançava com a espada para o corpo-a-corpo.

Aqui em Cuba, muitos anos depois, enquanto ando para casa com um abacaxi em cada mão, fico pensando nos legionários de antigamente. Para todos os fins e efeitos, estou armado. Em caso de problemas, atiro um abacaxi na cara do oponente e avanço com o outro para espetá-lo no bucho.

Afinal, foi assim que os romanos conquistaram o mundo.

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Os Turistas, suas Roupas e Apetrechos

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Odeio turista que viaja vestido para safári. ¿Vocês já viram isso? Eu me sinto ofendido quando estou em plena Rio Branco, centro do Rio de Janeiro, coração financeiro de uma das maiores cidades do hemisfério ocidental, culta e cosmopolita, e me passa um alemão fantasiado de bwana, roupa cáqui, chapéus de abas moles e esvoaçantes, pernas brancas de fora, sandálias nojentas, meias esticadas até o joelho rosado, garrafa d'água na mão (como se não houvesse onde comprar água mineral a cada meio quarteirão!) e uma mochila do tamanho do mundo nas costas - pois, obviamente, um explorador cruzando a selva árida e inóspita precisa ter consigo tudo o que possa precisar! (...)

It Disgusts Me to See Tourists Dressed as If in a Safari

Enquanto isso, pessoas boas e honestas, que em suas terras têm uma consciência social e doam à caridade, circulam desavergonhadamente com iPods na cintura entre gente que teria que trabalhar vinte anos para comprar um. E, se eu tentasse explicar a eles a violência da situação, não entenderiam: ué, Alexandre, ¡mas comprei esse iPod com o meu dinheiro que ganhei honestamente!

Se não por empatia, poderiam deixar seus palmtops em casa por uma questão de segurança. Muitos pais de família (que enfrentam dificuldades que o pessoal de Shithole, Wyoming, nunca nem ouviu falar) poderiam ficar seriamente tentados a dar uma facada no bucho de um desconhecido insensível para garantir três anos de alimentação para os seus filhos. ¿E quer saber? Se conseguir fazê-lo sem ser capturado, dou o maior apoio. Olho pro outro lado e finjo que não vi.

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Odeio Viajar

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Aí, pra ser simpático, eu pergunto como foi a viagem: ah, foi ótima. Era uma excursão de trinta brasileiros em um ônibus. Ficamos no Holiday Inn do Bois de Bologne. Passamos cincos dia maravilhosos em Paris. ¡Fomos ao Louvre, à Torre Eiffel e fizemos muitas compras na Champs-Elyseés! E, por fim, com uma ingenuidade sincera, concluem: ¡Foi uma delícia conhecer a França! (...)

Eu odeio viajar porque viajar é uma tarefa física e mentalmente estafante. Viajar demanda aplicação e estudo, para que não se chegue ao destino como um turista ignorante. Viajar exige uma alteração completa na rotina, uma imersão radical na nova cultura. Viajar quer dizer aprender a comer, se vestir, se locomover e falar como os nativos. Viajar significa reaprender do zero as atividades humanas mais básicas, utilizar ao máximo a capacidade de adaptação que nos separa dos outros animais. Se isso não é a coisa mais cansativa do mundo, eu não sei o que é.

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O Golpe das Moedas

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Tento me colocar no seu lugar. Enfrenta dificuldades que jamais imaginei em minha vida burguesinha entre os shoppings da Barra da Tijuca. Não planejou, não mentiu. Na verdade, não fez nada. Provavelmente, foi pega de surpresa. Aquele gordo estrangeiro falando um espanhol horrível lhe entregou os vinte e oito pesos conversíveis, colocou os dois livros em sua bolsa e foi-se embora. Tudo foi tão rápido que mal deu tempo de falar.

Como só fui me dar conta semanas depois, não me lembro de nada. ¿Como terá sido? ¿Ela agradeceu? ¿Fugiu do meu olhar? Pensou em dizer algo, ¿mas refreou o impulso? ¿Ficou envergonhada do seu pecadilho? Ou, pelo contrário, ¿se gabou com as outras vendedoras desse pequeno golpe que todas aplicam? (¿Será um golpe socialmente aceito?)

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Leonardo, um Apaixonado

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Coitado do menino, estava desesperadamente apaixonado por ela. (...) Para mim, a situação era bastante familiar: ¿quantas vezes minhas melhores amigas da infância e da adolescência já não tinham feito a mesma coisa comigo? Um homem as chamava pra fazer alguma coisa com as mais evidentes segundas intenções e, ao invés de dizer não, elas me levavam junto para segurar vela e fazer a segurança da propriedade. Perdi as contas de quantas bocas-livres já desfrutei assim. E, agora, uma viagem grátis à praia. (...)

Playas del Este

A praia, Mar Azul, era simplesmente linda. Se essa foi a que sobrou pros cubanos, eu fico me perguntando como devem ser as somente para turistas, aquelas com policiais uniformizados nas entradas, exigindo passaporte dos visitantes. Fidel Castro, se fosse vivo, jamais permitiria uma situação dessas. Afinal, ¿ a Revolução não foi justamente pra evitar que Cuba se tornasse o bordel dos Estados Unidos? (...)

The Road from Havana to Playas del Este

Foi um dos caras mais gente boa que conheci em Cuba. Quem nunca esteve no lugar dele é porque não tem pau.

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Antídoto ao Museu

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Não gosto muito de visitar museus. Acho que museus são uma pasteurização da cultura, mostrando de forma segura e envidraçada, controlada e domesticada, algo que, por definição, é caótico e descontrolado. (...)

Os cubanos são tão barulhentos e extrovertidos que fazem os brasileiros parecerem quietos e pacíficos suíços. Raras foram as salas onde entrei e os funcionários sentavam em silêncio - talvez, brigados. Quase sempre, estavam conversando a altos brados, rindo, batendo papo, contando fofocas, felizes. Algumas vezes, almoçando sem cerimônias. Noutras, acreditem ou não, namorando: uma mulher com as pernas entre as pernas do homem, ele com as mãos nas coxas dela, cenas assim. Não vi beijos, mas deve ter sido falta de timing. (...)

Aquela força vital incontrolável dos funcionários cubanos, satisfazendo seus mais básicos instintos aos pés daqueles sagrados altares da arte, rindo e se abraçando, comendo e se bolinando, foi o perfeito antídoto à pasteurizada artificialidade do ambiente. Afinal, arte é vida.

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Fotografando as Cubanas

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Depois de muito tempo, eu dei um longo suspiro e disse: puxa, ¿esses caras não embora? Eu já tinha desistido, mas Juana queria suas fotos: espera um pouco e me segue, ela disse, e entrou por uma ruela escura e algo sinistra. (E eu penso: ¿será que ela está me esperando do outro lado com três negões que vão levar até meus dentes, cabelos e rins?)

Mercedes

Quando fui atrás dela, Juana estava magnificamente disposta nas escadarias de um prédio semi-abandonado. Linda, sensual, convidativa. (...)

Mercedes at Malecon

Como sempre, para evitar mal-entendidos, sugeri um lugar público, algum dos três parques que havia ali por perto. E ela sugeriu: ¿por que não tiramos aqui dentro? (E eu penso: ¡¿dentro de um cinema fechado às dez da manhã?!)

Carmen: Finger in Mouth & Soles

Carmen foi entrando pelo cinema e eu atrás, até chegarmos em um dos escritórios da administração, onde havia uma mulher gorda atrás da mesa. E Carmen pergunta: mãe, o moço quer tirar fotos dos meus pés. ¿Tem problema? (E eu penso: ¿será que ela é menor de idade?, ¿será que mãe vai chamar a polícia?, ¿será que saio vivo daqui?) (...)

Carmen: Laughter & Andalusian Spree

Pois bem, ela topava, ¿mas onde? Aqui mesmo, eu disse, mas estávamos em uma mesa ao ar-livre, ela ficou receosa, a polícia poderia ver, melhor não. ¿Onde então? Maria começou a ficar nervosa, queria os três pesos, mas também não queria se arriscar. Para não prejudicá-la e já meio arrependido, eu disse: olha, se não quiser, não tem problema. Ah, mas ela queria. A questão era como. Fez um gesto e apareceu seu solícito gigolô. Ele também queria os três pesos e os dois começaram a discutir possíveis lugares.

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Desigualdade Socialista (Texto Completo)

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Um cubano me contou de uma amiga sua que é ginecologista. Ganha tão pouco que vive mesmo é dos presentes que recebe dos pacientes. Ganha tão pouco que os faxineiros do hospital ganham mais que ela. E explicou: os corredores andavam sujos e o governo ofereceu um adicional salarial por limpeza. Resultado: os corredores agora são um brilho, mas os faxineiros ganham mais do que todo mundo no hospital.

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Visitas à Prisão

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Visitar Cuba é como visitar uma enorme prisão.

Você traz presentes simples e úteis, coisinhas baratas e fáceis de conseguir na farmácia da sua esquina, mas completamente inalcançáveis para os presos. Faz amizades, às vezes superficiais, às vezes profundas. Ama, aprende, observa.

Ainda assim, no fim do dia, quando toca a sirene, você sai e eles ficam.

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O Policial Cubano, Esse Racista Repressor

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Vedado Saturday 3AM

Esse policiamento ostensivo causava situações humilhantes e constrangedoras. Muitos de nossos conhecidos faziam questão de andar alguns passos atrás de nós, como se fôssemos os bwanas e eles, nossos núbios escravos. Quando aparecia um policial, eu virava de costas e tinham sumido. Depois, reapareciam. Em pelo menos um caso, enquanto estávamos conversando no Malecón, um cubano negro literalmente pulou no mar quando viu um policial se aproximando. Leonardo, talvez mais orgulhoso, talvez com a ficha mais limpa, fazia questão de andar ao nosso lado, mesmo sabendo que pagaria o preço.

Vedado Saturday 3AM

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O Dilema do Estrangeiro

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Me senti um afrikaner em Cape Town. O sorvete é dos caras, eles inventaram, eles ficam na fila horas pra comprar e lá venho eu, o imperialista tupiniquim, furar a fila e tomar o sorvete no primeiro banco do ônibus.

Rosa Parks teria derrubado meu sorvete no chão. (...)

Me senti um agente imperialista infiltrado entre as massas exploradas. Ao invés de estar na fila que me cabia, eu estava pagando barato por um sorvete que tinha sido subsidiado com o suor de todos aqueles cubanos infinitamente mais pobres do eu.

Rosa Parks também teria derrubado meu sorvete no chão.

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Dirigindo com um Punhal no Volante

Radical Rebelde Revolucionário

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Habana Street Scene

Se dirigissem com a ponta de um punhal saindo do volante e apontada para seus peitos, as pessoas dirigiriam com o máximo de cuidado. Por outro lado, quanto mais airbags, cintos de segurança e freios ABS, mais seguros os motoristas se sentem e mais temerariamente dirigem. (...)

Pushing their Car

Confie em mim: se algum dia, você possuir qualquer coisa que digam que não tem conserto, não pense duas vezes. Meta num pacote e mande pra Cuba. Por dois dólares, um cubano coloca ele funcionando de novo. O que quer que seja. Talvez seja a solução para o submarino nuclear brasileiro, por exemplo. (...)

Learn to Drive in a Lada

Em cada esquina de Havana, se vê um cubano de cara enfiada no motor de seu carro, cuidando e consertando, azeitando e pintando, às vezes apenas lambendo a cria. Tratam seus carros com amor quase obsessivo. Amor de quem sabe que, se perder, não vai ter outro.

Inside a Cuban Taxi

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Cinema Cubano (Texto Completo)

Radical Rebelde Revolucionário

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Mordendo a mão que lhe alimenta

Como tudo em Cuba, o cinema é um monopólio estatal exercido pelo onipresente ICAIC, Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematograficos.

Já ouvi algumas histórias de horror sobre o ICAIC. O financiamento é pouco, somente alguns filmes podem ser produzidos por ano, o processo de escolha acaba se tornando feroz e politizado, o comitê executivo escolhe sempre os roteiros dos seus amigos e afilhados, uma frase pouco revolucionária pode condenar seu filme à não-existência, etc. Tudo bastante previsível em um órgão centralizado e centralizador.

O surpreendente são os filmes. Assistindo aos mais recentes, não se vê essa estrutura soviética de produção. Não parecem filmes ideologicamente bem-comportados escolhidos por um comitê revolucionário. Sim, não são formalmente ousados. O estilo, a fotografia, os roteiros, tudo é muito certinho – com raras e honrosas exceções. Entretanto, não há um único roteiro que não contenha fortes críticas ao mesmo governo que está pagando a conta.

Os maiores sucessos

   Morango e Chocolate O maior sucesso internacional do cinema cubano é “Fresa y chocolate” (Tomas Gutierrez Alea, 1993), no qual um militante comunista fica amigo de um artista gay com o propósito de denunciar suas atividades contra-revolucionárias. Ao longo do filme, porém, os dois vão ficando amigos e o comunista descobre, para sua surpresa, todo o preconceito oficial e social contra homossexuais em Cuba. Por fim, o gay (sempre mostrado positivamente) conclui que sua carreira nunca irá a lugar nenhum no país e dolorosamente decide emigrar, com o apoio de seu amigo comunista. Ou seja, do começo ao fim, é uma grande crítica à homofobia cubana – a começar pela governamental. Fidel disse uma vez não acreditar que um homossexual pudesse ser um revolucionário.

O Aeroporto Internacional José Martí, aliás, é a maior presença do cinema cubano. De todos os muitos filmes que vi, só consigo lembrar de um único (“Lista de espera”, meu preferido) em que não há ninguém chegando ou saindo do país. O exílio é uma presença constante, forte, viva na cultura cubana. Todo mundo tem amigos, conhecidos, parentes na diáspora, que, apesar de viverem fora do país há mais de cinqüenta anos, mesmo algumas tendo nascido no exterior e nunca visitado Cuba, se sentem fortemente cubanas e continuam criando arte cubana no exílio.

      GuantanameraOutro grande sucesso internacional do cinema cubano foi “Guantanamera” (Tomas Gutierrez Alea e Juan Carlos Tabio, 1995), mistura de road-movie com comédia, no qual um burocrata ambicioso e insensível, mas honesto, inventa um sistema socializado de transporte de corpos. Quando morre uma velhinha em um canto da ilha e tem que ser enterrada no outro, ele e sua esposa decidem acompanhar o corpo para testar o método. Cruzam o país, conhecem todo tipo de gente, etc. Em termos de críticas ao governo, é um dos mais suaves. Ainda assim, uma das mensagens principais é que a burocracia cubana perdeu os limites do ridículo. Foi o último filme de Alea, de quem falarei mais.

Sinceramente, apesar do sucesso que fizeram, “Fresa y chocolate” e “Guantanamera” são dois filminhos banais, que acho que só interessam a alguém como eu, que queria conhecer mais sobre Cuba.

“La vida es silbar” (Fernando Perez), único longa-metragem de ficção produzido em Cuba em 1998, acumulou prêmios por todo o mundo e foi muito badalado. Tem alguns elementos geniais, como a senhora que desmaia cada vez que alguém fala a palavra amor e a cena na qual seu psicólogo sai pela rua disparando outras palavras que também fazem as pessoas desmaiarem, mas achei um filme muito desigual.

Minhas sugestões

“Suite Habana” (Fernando Perez, 2003) é um mezzo-documentário que acompanha a vida de dez havaneiros comuns. Não há diálogos, mas as músicas e efeitos sonoros são fascinantes. Quase vale por uma visita a Havana – só faltam os cheiros. Uma hora e meia de um filme sem diálogos pode ser absurdamente tedioso, mas vale a pena, nem que você tenha que assistir em três sentadas. Dos que conheço, é o único filme produzido em Cuba cuja câmera foge ao lugar-comum do cinema narrativo. A fotografia, os ângulos, os takes, tudo é plasticamente lindo e ousado.

  Sou Cuba Entretanto, em termos de plasticidade e ousadia cinematográfica, nada se compara a “Soy Cuba” (Mikhail Kalatozov, 1964). Em plena crise dos mísseis, o governo soviético enviou uma missão à ilha para fazer “o grande filme cubano”. São quatro histórias ambientadas na Cuba pré-revolucionária, também sem diálogos, mostrando como a vida da população era insustentável e, conseqüentemente, justificando a Revolução. Apesar de às vezes insuportavelmente tedioso, é o filme mais lindo que já vi. O soviético faz coisas com aquela câmera que nunca ninguém tinha ousado fazer. De acordo com os artigos que li, algumas ninguém ainda conseguiu (ou se dispôs a) repetir.

     O Cinema Revolucionário SoviéticoIronicamente, “Soy Cuba”, uma das maiores obras-primas do cinema de todos os tempos, nasceu com objetivos políticos e foi morto por objetivos políticos. As autoridades cubanas acharam que o filme mostrava o país e seus habitantes de forma esquemática, simplista, condescendente, e não permitiram sua exibição na ilha. As autoridades soviéticas consideraram o filme insuficientemente ideológico (a grande arte sempre é) e também não permitiram sua exibição. Não comunista o suficiente para os soviéticos, o filme foi considerado comunista demais pelos americanos e também censurado. Até sua recuperação na década de noventa, quase ninguém tinha visto “Soy Cuba”. Não cometa esse erro. Corra atrás. Faz pouco tempo, um cineasta brasileiro fez um documentário sobre a realização de “Soy Cuba” que ainda não consegui encontrar: "O mamute siberiano".

Dos clássicos do cinema cubano da década de sessenta, há dois que eu adoro: “Morte de um burocrata” (1966) e “Memórias do subdesenvolvimento” (1968), completamente diferentes e obras do mesmo diretor, Tomás Gutierrez Alea, o papa do cinema cubano.

“Morte de um burocrata” é uma comédia sobre um operário-modelo que, em honra de seus anos de serviço impecáveis, é enterrado por seus colegas com seu carnê de trabalho. Entretanto, a viúva precisa do carnê para receber sua aposentadoria. O filme mostra o desesperador labirinto burocrático que ela e seu sobrinho precisam percorrer para conseguir desenterrar o velho e pegar o documento. Mais uma vez, críticas ao governo do começo ao fim.   Buena Vista Social Club

“Memórias do subdesenvolvimento”, de todos os filmes cubanos que assisti, é ao mesmo tempo o mais pró-Revolução e a obra de arte mais bem-construída. Baseado no romance homônimo de Eduardo Desnoes (que faz uma ponta no filme como ele mesmo), mostra a vida de um burguês rico que decide ficar em Cuba após a queda de Batista e a emigração de toda sua família e amigos, inclusive a esposa. O filme tem um movimento ideológico interessante. Há críticas ao novo governo do começo ao fim, mas, como são feitas pelo protagonista reacionário e antipático, a mensagem do filme acaba sendo: vejam, a Revolução está tirando os privilégios dos burgueses e eles não estão gostando, os canalhas! Não se deixem enganar pela ideologia: é um filmaço, bem-conduzido, bem-realizado, fascinante, obra de arte do começo ao fim.

Da produção recente, gostei muito de dois filmes que quase não foram badalados: “Aunque estés lejos” (2003) e “Lista de espera” (2000), ambos de Juan Carlos Tabío.

“Aunque estés lejos” tem um dos roteiros mais originais do cinema cubano contemporâneo. Uma equipe do ICAIC está na Espanha buscando patrocínio para um filme – praticamente todos os filmes recentes do ICAIC têm co-produção européia. À medida que vão sugerindo idéias de roteiro, as sugestões vão se incorporando à “história real” vivida pela equipe do ICAIC, até o ponto em que não se sabe mais onde começa uma e termina a outra. Apesar da metalinguagem já não ser mais novidade vanguardista faz tempo, foi uma delícia assistir um filme que brinca o tempo todo com a própria idéia de cinema, cheio de piadas internas e detalhes escondidos. Raros foram os filmes que, como esse, terminei e recomecei a ver na mesma hora.

Por fim, meu preferido geral é talvez o mais simples e mais barato de todos, uma comédia despretensiosa, mas muito bem realizada, roteiro e atuações impecáveis, mas sem ousadia ou vanguardismos: “Lista de espera” mostra um grupo de cubanos em uma parada de ônibus isolada, esperando um ônibus que nunca chega. Nesse meio tempo, interagem, se amam, se odeiam, brigam, tudo aquilo que fazem dezenas de seres humanos desconhecidos obrigados a conviver por um longo período de tempo. Uma pequena jóia.

Jorge Perugorria

Não dá pra falar de cinema cubano sem falar em Jorge Perugorria.

Precisei ver uns três filmes com ele até me dar conta de que era a mesma pessoa. Ao contrário dos pseudo-grandes-atores que fazem sempre o mesmo papel (Al Pacino, Jack Nicholson), Perugorria é um verdadeiro camaleão, às vezes completamente irreconhecível. Em sua estréia, “Fresa y chocolate”, era um homossexual tão perfeito, sutil e bem-construído que você juraria que o homem jamais poderia ser hetero. No filme seguinte, “Guantanamera”, era um rude, barbado e peludo caminhoneiro. Em “Frutas en el café”, um fervoroso pequeno burocrata comunista, tímido, reprimido e careca. Em “Lista de espera”, um cego cambalacheiro. Em “Rosa de Francia”, um capitão de navio ao mesmo tempo bom e mau, golpista e honesto. A lista continua: o homem parece estar em dois terços dos filmes cubanos.

Em minha humilde opinião, Perugorria é um dos melhores atores de sua geração, de qualquer lugar do mundo.

Ironicamente, quando falei isso aqui em Cuba, discordaram de mim todas as vezes. Dizem que a opinião corrente é que Perugorria interpreta sempre o mesmo papel.

Casa de ferreiro, espeto de pau.

Site oficial do ator.

Sexo e nudez       The Sons of Cuba

Perguntou uma amiga americana: por que o cinema latino-americano sempre mostra nudez, mesmo quando não é necessária? E eu perguntei de volta: por que o cinema norte-americano sempre foge da nudez, mesmo quando ela seria natural?

Obviamente, os dois estão certos: depende das expectativas e contexto de cada cultura. O cinema latino-americano muitas vezes apela com suas longas cenas de pornografia gratuita. Por outro lado, é constrangedor ver o esforço de muitos filmes norte-americanos pra fugir, esconder, reprimir o sexo e a nudez. Especialmente ridículas são aquelas cenas em que os personagens andam nus pela casa, mas seus membros sexuais, por incríveis malabarismos de câmera, estão sempre atrás de algum vaso. O filme “Corra que a polícia vem aí” tem uma cena brilhante que satiriza essa idiotice. De fato, em muitos filmes americanos, a nudez acaba sendo enfatizada justamente pela sua ausência. Como disse Borges, a melhor maneira de chamar atenção para uma palavra é não usá-la nunca.

    Cuba Feliz Enfim, nunca vi outro cinema (nem o europeu, algumas vezes tão apelativo quanto o latino) onde a nudez seja mostrada de forma tão lindamente natural quanto o cubano – sem apelação e sem pudores. Digo mais: é uma naturalidade tão perfeita e tão disseminada que só pode ser fruto de uma política explícita, aplicada consistentemente. Ninguém veste uma camiseta pra se levantar da cama e ir até a geladeira. Os amantes, depois do sexo, conversam nus, na cama, ou andando pela casa. Não há ênfase alguma em mostrar seus órgãos sexuais, mas também não há nenhuma tentativa de escondê-los. A nudez é tão natural que chega a se tornar assexuada.

Os personagens se levantam da cama nus e andam pelo quarto como uma pessoa normal andaria nua pelo seu quarto: não há nem o close na bunda do cinema apelativo latino ou o vaso na frente do pênis do pudico cinema americano.

A vida sexual das cinqüentonas

Para um carioca, da terra do culto ao corpo, onde os feios são quase párias, espanta ver a quantidade de mulheres cinqüentonas sexualmente ativas e atraentes   Morango e Chocolate do cinema cubano. Convenhamos: com raras e honrosas exceções, no Brasil, os atores ainda podem interpretar galãs até os oitenta (Tarcísio Meira já está beirando os cem), mas as mulheres muito cedo se vêem restritas aos papéis de vovó. As poucas exceções à regra são as atrizes absolutamente belíssimas. Fica implícito que mulheres somente podem continuar seres humanos sexuais depois dos cinqüenta se forem verdadeira divas. Às feias, resta interpretar a Dona Benta.

Algumas das figurinhas mais fáceis do cinema cubano, Mirtha Ibarra, Susana Perez e Beatriz Valdés, são atrizes que já dobraram o Cabo da Boa Esperança faz tempo, não se enquadram nos padrões estéticos vigentes e não são divas nem símbolos de sexuais, mas interpretam sempre mulheres que amam e são amadas, que fazem sexo com a naturalidade das pessoas comuns, sem aquela presunção de que a vida sexual no cinema termina aos cinqüenta.      Guantanamera

Aliás, a Susana Perez é meio feinha, mas a Mirtha Ibarra é um charme e a Beatriz Valdés é o máximo.

Fábrica de pôsteres

Talvez por compromisso artístico, talvez para gerar empregos para os artistas plásticos cubanos, o fato é que o ICAIC refaz localmente todos os pôsteres de cinema. Nenhum filme passa em Cuba com seu pôster original. E não são simples pôsteres, mas verdadeiras, algumas vezes lindíssimas, obras de arte. Ao longo de quase cinqüenta anos, o resultado é um corpus artístico simplesmente impressionante. Não é à toa que se encontram esses pôsteres para vender por toda Cuba. São um presente muito mais original e tipicamente cubano do que fotos do Ché ou vistas aéreas de Havana. Estou levando três para decorar minha casa e minha sala na universidade: “Soy Cuba” e “Suite Habana”, dos quais já falei, e “Cimarrón”, um documentário sobre os negros quilombolas cubanos.

Abaixo, a ante-sala do ICAIC, onde estão expostos alguns dos melhores pôsteres. Fotos tiradas graças à cara-de-pau do meu amigo bozó Cándido.

Icaic's Walls

Icaic's Walls

Comprando filmes cubanos em Cuba

Comecei a falar de cinema cubano e um leitor me pediu pra trazer uns filmes. Coitadinho! Achou mesmo que dava pra comprar filmes cubanos aqui? Em Cuba? Seria mais fácil encontrar papel higiênico! Para assistir a produção nacional, os cubanos precisam esperar que passe nos cinemas ou reprise nas salas de vídeo. Todos esses filmes que vi foram baixados pelo eMule.

Na verdade, acabou acontecendo outra coisa muito interessante: fiz verdadeiras tertúlias cinematográficas aqui em casa, justamente para mostrar aos amigos não só filmes cubanos que perderam quando passaram no cinema, como também, mais ainda, filmes cubanos produzidos na diáspora, proibidíssimos na ilha.

Nunca me senti tão subversivo.

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Cándido, o Bozó

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Graffitti at Callejon de Hamel

Callejon de Hamel

Yo Puedo Mas que Tu

Graffitti

Depois do show, caminhando pelo Vedado, Cándido queria muito ir ao banheiro, não tinha nenhum lugar aberto e estávamos longe de casa. O homem não se perturbou. Abriu sua caderneta de telefones, fez alguns cálculos pra ver quem estava mais perto e fomos bater, à uma da manhã de sábado, na casa de uma pobre senhora onde a TV tinha filmado um episódio de uma série. Ele fez os maiores salamaleques, perguntou como ela estava, se não tinham quebrado nada, se o pagamento saíra no prazo e, naturalmente, aproveitou pra dar sua cagadinha.

Icaic's Walls

Icaic's Walls

Nessa mesma madrugada, estávamos caminhando pela rua, passamos pelo ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematograficos) e eu comentei que adorava aqueles pôsteres de filmes. Não precisou falar duas vezes. O homem bateu no vidro, acordou o pobre guarda-noturno às três da manhã, disparou seu inefável crachá e pediu pra ver a sala dos pôsteres, uma galeria dos melhores de todos os tempos. O guarda nem hesitou: acendeu tudo, nos recebeu com honras e nos deixou até tirar fotos.

Cuban Boxing School for Kids 4

Cuban Boxing School for Kids 3

Cuban Boxing School for Kids 2

Cuban Boxing School for Kids 1

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Comprando Comida em Cuba

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De um modo bem real, viver em Cuba é um pouco como viver em séculos passados, em um mundo maior e mais isolado, com linhas de comunicação e abastecimento instáveis e irregulares. Quando chega um navio carregado de maçãs, todo mundo tem maçã até cansar. Quando acabar, acabou. Quando chega um navio carregado de iogurte húngaro, todo mundo come iogurte húngaro. Quando acabar, sabe-se Lênin de onde será o próximo. Melhor não se apegar a nenhuma marca. Aliás, esse negócio de se apegar a marcas é mesmo coisa de burguês capitalista.

Na primeira visita de Annie à Cuba, a professora que acompanhava o grupo propôs um exercício interessante: deu a cada aluno uma lista de dez produtos teoricamente fáceis de conseguir. A dificuldade, quase sempre impossibilidade, que tiveram em encontrar lâmpadas, aspirinas, lenços de papel, etc, foi uma verdadeira lição sobre o cotidiano de milhões de cubanos.

(Naturalmente, o exercício é relativo. Eu poderia fazer a mesma coisa nos Estados Unidos e, quando os alunos não encontrassem jabuticaba, cápsula de guaraná, suco de caju e forminha de fazer empada, eu comprovaria empiricamente a escassez de bens na terra do Tio Sam.)

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A Curiosidade Matou o Burguês

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Quando triunfa a Revolução, toda sua burguesa família, seus burgueses amigos, até sua fútil e histérica esposa, emigram para Miami. Menos ele. Um amigo lhe pergunta por que, e ele responde:

Os Estados Unidos eu sei como são. Aqui, eu não faço idéia do que vai acontecer. Quero ficar para ver. (...)

Naturalmente, muitos condes franceses guilhotinados em 1794 devem ter dito o mesmo. É o problema de viver em tempos interessantes.

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Casas Particulares vs Burocracia Cubana

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Rosa recebe visitas-surpresa semanais dos inspetores do governo. Cada aspecto do meu apartamento é cuidadosamente fiscalizado, verificado, mensurado. O homem confere se não há cheiros estranhos, se há espaço de circulação, se os lençóis e toalhas são novos, se há água corrente na pia, se a geladeira está ligada, se a varanda está desobstruída, tudo. Seu checklist tem várias páginas e dezenas e dezenas de itens, todos metodicamente analisados e computados. Segundo ela, são incorruptíveis. Se calha de não ter água corrente na pia, não adianta lhe dar um mojitinho: só piora as coisas. O homem fecha a casa e ainda lhe leva preso por tentativa de corrupção de um revolucionário.

Além disso, eu tenho que assinar semanalmente o livro de hóspedes, o mesmo livro onde Rosa precisa escrever os nomes e documentação completa de qualquer cubano que me visite. Se eu for visitado muitas vezes pelo mesmo cubano, a polícia com certeza o chamará para prestar esclarecimentos sobre quais são nossas relações. Se eu for visitado por mais de duas mulheres diferentes, Rosa será investigada por suspeita de promover ou facilitar a prostituição. Os fiscais analisam tudo tintin por tintin. (...)

Entendo o desespero de Rosa, mas não consigo deixar de pensar: se houvessem no Brasil funcionários pra inspecionar cada pousada toda semana e cheirar os lençóis, eu teria conseguido ficar em alguns dos quartos que reservei pela internet.

A burocracia cubana é pantagruélica e dantesca (pra não dizer kafkiana), mas, pelo menos nesse ponto, funciona. Em Cuba, se aluga um quarto de olhos fechados e narinas bem abertas.

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Os Livros Proibidos da Biblioteca Nacional

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Naturalmente, nada é informatizado. Ainda devem ser as mesmas fichas que o próprio José Martí consultou. Em uma biblioteca informatizada, onde você precisa se logar para fazer qualquer coisa, todas suas atividades podem ser espionadas. Fichas de papel, entretanto, ninguém tem como saber quais foram as que eu consultei. Aproveitando essa inesperada liberdade, fui verificar se alguns autores contra-revolucionários estavam representados na biblioteca.

Biblioteca Nacional Jose Marti

Pensei primeiro em Cabrera Infante e Reinaldo Arenas, dois novelistas famosos que emigraram depois da Revolução e malharam Cuba incessantemente. (...)

Um deles foi a primeira edição em livro de "Cecília Valdés", considerado pelos cubanos o seu melhor romance do século XIX e, por mim, como talvez o melhor romance que se escreveu nas Américas nesse século, disputando o pódio somente com "Moby Dick".

(Se me perguntarem, a melhor obra literária é o "Song of Myself", do Whitman.)

Pois bem, "Cecília Valdés" foi primeiro serializado em revistas durante o ano de 1839. Depois, o autor reescreveu tudo e lançou uma edição aumentada, em formato livro, no mesmo ano. Por fim, em 1882, publicou no exterior uma versão mais uma vez totalmente reescrita e muito maior.

As mudanças feitas no romance foram ditadas, entre outras coisas, pela situação política em Cuba, pela severidade da censura, pelas posições políticas do autor (que passou de anexionista a independentista), pelas mudanças no status da escravidão, pela guerra colonial contra a Espanha, pela transição do romantismo ao realismo, etc. Ou seja, além de ser um romance simplesmente genial por seus próprios méritos, a história da composição de "Cecília Valdés", suas diferentes edições e muitas reescrituras, reflete cinqüenta anos de História de Cuba.

Hoje, quando se reedita "Cecília Valdés", é sempre a terceira e última versão, de 1882. A segunda, lançada em livro em 1839, nunca foi reeditada. Sabe-se lá quantas cópias existem no mundo. A própria Biblioteca Nacional de Cuba só tem uma. Quando um estrangeiro pede pra ver, naturalmente que soam alguns alarmes.

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Falta d'Água

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Pois em Cuba as residências têm somente algumas horas de água corrente por dia. No nosso bairro, é de onze da noite às três da manhã. Mais ou menos. Nem sempre funciona. Para que possamos viver no século XXI, a casa dispõe de uma bomba de sucção que suga a água do encanamento para três enormes tonéis. Quando passamos três dias sem fornecimento, no começo da minha estadia, os tonéis ficaram quase vazios e tivemos que racionar.

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Chuva em Havana

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Rain at Paseo Prado

Falta água nos canos, não caindo do céu. (...)

Rain Over Habana

Playing in the Rain at Paseo Marti

Hiding from the Rain

No verão de Havana, seu corpo fica eternamente molhado: quando não é a chuva, é o suor. Ficar seco tornou-se um sonho distante.

Waiting for the Rain

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Quem Casa Quer Casa

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O governo costumava construir conjuntos habitacionais - pra lá de onde Trotsky perdeu as botas, horríveis, enormes, estéreis, parecendo ter sido projetados por um alemão oriental autista que estagiou com Oscar Niemeyer - mas agora, sem dinheiro dos russos, nem isso.

Real Estate Fair

Se você quer sair da casa dos seus pais e morar sozinho, desista. Se você se casou e quer ir morar no seu cantinho com seu esposo, esqueça. Em Cuba, a família é como a Máfia: ninguém sai. Só morto. (...)

Real Estate Fair at the Paseo

Chegamos num ponto da história em que mesmo os maiores inimigos de Fidel receiam sua morte: pelas esquinas de Havana, trocam-se cenários apocalípticos pós-Fidel como, em outros lugares, trocam-se fofocas sobre Angelina Jolie e Brad Pitt. Fica-se com a impressão de que a morte do Fidel trará nada mais nada menos que o fim da civilização. (...)

Em Roma Antiga, o poder dos patriarcas era absoluto e incontestável. Enquanto seu pai fosse vivo, mesmo que você tivesse cinqüenta anos e fosse senador, ele podia te matar - legalmente. Ninguém ficaria espantado de saber que, nessa sociedade, parricídio era mais comum que restaurante vegetariano na Califórnia. Para muitos homens ambiciosos, matar o pai era o primeiro e mais necessário passo na sua vida pública.

E eu fico pensando cá com meus botões qual deve ser a taxa de familicídio na Cuba de hoje. ¿Quantos jovens apaixonados não matariam sem hesitar uma avó gosmenta para viver juntos em seu ninho de amor? Chega a ser até romântico, um ato extremo que selaria a união dos pombinhos: matamos primeiro minha mãe ou a sua, ¿meu amor?

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Uma Civilização de Posseiros

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O Vedado, bairro classe média alta de Havana, é repleto de belíssimos palacetes da belle epoque, jóias da arquitetura européia, hoje dilapidados e decaídos, habitados por gente pobre e negra, seus varais repletos de roupas rasgadas secando ao sol em jardins projetados pelos maiores paisagistas franceses. Um pouco como os índios neolíticos da América Central ocupando as pirâmides abandonadas pelos maias, Cuba parece uma civilização de posseiros: há uma discrepância visível, gritante entre as casas e as pessoas que as habitam.

Hotel Presidente in Vedado

A riqueza de Havana, assim como a do Rio e a de Nova Orleans, se construiu nas costas de escravos. Os palacetes coloniais das três cidades que eu mais amo no mundo foram envernizados com o sangue de um povo que morria feito moscas para que meia dúzia de janotas pudessem ir à ópera, declamar poesias nos cafés e usar polainas nos sapatos. Até hoje, os descendentes de escravos são consistentemente mais pobres, mais doentes e menos educados do que os descendentes dos escravizadores - daí a importância da ação afirmativa.

Sim, a discrepância entre os palacetes de Vedado e os rostos negros e mãos calosas dos seus atuais moradores é surpreendente - mas só porque, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, pela herança maldita da escravidão que nossas sociedades ainda arrastam pelos tornozelos como uma bola de ferro, quando se vê uma mansão nos Jardins ou um brownstone em Upper West a última coisa que se espera é que o dono da casa seja um estivador negro. E, óbvio, nunca é.

Em Cuba, falta de tudo, menos justiça poética.

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Saindo de Cuba

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Essa propaganda contra-revolucionária é foda. Por exemplo, dizem que as pessoas não podem sair de Cuba, o que é a mais arretada mentira. Claro que podem. Assim como qualquer cidadão brasileiro pode ter uma emissora de rádio: basta pedir uma concessão ao governo e pronto. Fácil assim. (...)

Enfim, só mesmo sendo um contra-revolucionário anti-comunista pró-Bush pra dizer que o governo de Cuba proíbe seus cidadãos de viajar ou emigrar. É impressionante como a ideologia cega as pessoas. Basta seguir os simples passos acima e qualquer cubano pode esquiar em Vail ou velejar pela Polinésia.

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Casando com Estrangeiros

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Nesse ponto, simpático leitor hipotético, você diria: ¿pra que viajar? ¡Melhor o cubano se casar logo com um estrangeiro e pronto!

Até parece. (...)

Depois de mais de um ano de trâmites (e o pobre homem nesse vai-e-vem entre os dois países), o pedido foi recusado. Sim, recusado. O cidadão mexicano pode ir pro exterior e casar com quem quiser, mas trazer a mulher pra morar com ele é outra história. O governo estudou o caso, não gostou, vetou. Caso encerrado. (...)

Enquanto isso, Isabel senta na cozinha e marca os dias no calendário.

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A Coisa Mais Irritante de Cuba

Radical Rebelde Revolucionário

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Não, não são os jineteiros tentando te enganar o tempo todo. Não, não é a terrível situação econômica e a pobreza generalizada. Não, não é a ditadura e a falta de liberdade. Não, não é o calor infernal alternado com a chuva torrencial.

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A Ética do Escritor

Radical Rebelde Revolucionário

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Eu, pensando nesse meu livro sobre Cuba que você está lendo agora, usando as histórias de dezenas de pessoas que conheci aqui (¡agora até a equatoriana está no livro!), pensando nas dezenas de fotos que tirei de pessoas na rua, pensando também nas empregadas domésticas com quem já conversei para meu romance em andamento, perguntei inocentemente: mas o que era para Barnet ter feito?

Bem, continuou ela, pra começar ter feito de Montejo não o alvo de sua pesquisa, não "o outro" a ser estudado, mas sim co-autor: parte da escritura e não parte do objeto. Se o livro é a biografia de Montejo, contada em suas próprias palavras, de acordo com as gravações realizadas, e somente transcrito e editado por Barnet, então ele deveria aparecer como editor e transcritor, talvez co-autor, mas nunca como autor, e menos ainda como autor único. Todo o dinheiro que ganhou, todos os prêmios, todo o reconhecimento, são, na verdade, de Montejo e foram roubados por Barnet, esse demônio encarnado das letras.

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O Sorvete e As Leis

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Uma das fontes mais importantes para a História de um povo são suas leis. Nunca houve uma lei proibindo os cidadãos de criar asas e voar. Quando se cria uma lei para proibir determinada atividade isso quer dizer que ela não só era amplamente praticada como que também estava se tornando uma questão social urgente. Muitas vezes, especialmente para períodos mais remotos, só temos como saber que algumas atividades já eram praticadas porque havia leis proibindo-as. Afinal, nenhum restaurante sueco proíbe seus clientes de entrarem sem camisa e sem sapatos, ou de batucar nas mesas.

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Antonia, a Ajudante

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Em Cuba, teoricamente, não há empregadas domésticas. A lei não permite que as pessoas trabalhem por conta própria, com exceção de algumas poucas atividades, como alugar quartos para estrangeiros, vender souvenires ou comida nas ruas ou fazer seu carro de táxi. (...)

Ai, ¡que saudades do Brasil onde essa gente sabe o seu lugar!

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O Contrajineteio

Radical Rebelde Revolucionário

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Meus amigos cubanos que testemunharam o contrajineteio, ao vivo e sem aviso prévio, tiveram que se conter para não rir. Alguns se afastaram pra não me entregar com suas risadas. Muitos até hoje não acreditam que tive a cara-de-pau pra inventar uma história dessas e, mais ainda, declamá-la com os olhos cheios d'água e apertando o ombro da vítima. Pois podem acreditar: meu pau, minha memória, minha voz, minha força física, todos esses vacilões já falharam comigo uma vez ou outra. Minha cara-de-pau, pelo contrário, nunca me deixou na mão.

Depois de ver o contrajineteio em ação, Cándido, um dos maiores caras-de-pau que eu já conheci, me fez esse enorme elogio: Alexandre, ¡já podes se considerar um havaneiro honorário!

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Por Uma Arte Imperfeita

Radical Rebelde Revolucionário

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Talvez a coisa mais incrível, surpreendente, sensacional que li em Cuba tenha sido o artigo "Por un Cine Imperfecto", do cineasta Julio Garcia Espinosa. Publicado na revista Cine Cubano em 1969, o grandecíssimo filha da puta do autor antecipa simplesmente tudo. Ele fala de democratização do cinema e, na verdade, está falando sobre o impacto dos blogs na literatura. Afinal, quando a diferença entre autor e leitor se desfizer, quando todos os leitores também forem autores, ¿como vai ser a nova literatura produzida então? Em 1969, Espinosa já estava escrevendo sobre blogs.

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Falta de Suprimentos

Radical Rebelde Revolucionário

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A comida de rua - cachorro-quente, doces, sorvete de casquinha, pizza - é depositada na sua mão direto da mão do vendedor. O arroz frito que se vende na rua não inclui talheres. Fiquei perplexo por alguns segundos, até lembrar da regra de ouro do viajante: faça como os nativos, ¡idiota! Arranquei um pedaço da embalagem de papel e usei de cuia para levar o arroz à boca.

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Saudades de Cachorro

Radical Rebelde Revolucionário

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O amor de um cachorro não admite artifícios ou paliativos. Podem mostrar minha foto ou tocar minha voz, ele sabe que não sou eu. Aquelas imagens e aqueles sons, quando dissociados do meu corpo, da minha presença física, não querem dizer nada pra ele. Nosso amor só pode existir quando estamos juntos, nos cheirando, nos tocando, nos abraçando.

Talvez por isso o amor de um cachorro seja tão transcendental e verdadeiro.

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Literatura, Cânone e Censura

Radical Rebelde Revolucionário

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Ironicamente, o que hoje se considera o cânone da literatura cubana do século XIX são justamente essas obras que, em sua época, não foram lidas por quase ninguém. Os romances que um cubano de 1850 consideraria como sendo a sua literatura, os que se publicavam em jornais e revistas, os que eram lidos pelas pessoas nas ruas, hoje mal são lembrados. (...)

A maior ironia talvez seja o fato de que as coisas pouco mudaram.

A ilha ainda é governada por um governo ditatorial que censura a imprensa e as editoras. Boa parte da cultura cubana é produzida na diáspora, por exilados, e não pode circular aqui. (...)

E o tempo vai passar, como ele sempre passa, e a política vai mudar. ¿Quem sabe o que vai acontecer? ¿Como será o processo de canonização da literatura cubana contemporânea?

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Uma Noite no Balé

Radical Rebelde Revolucionário

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Depois de acompanhar por semanas minhas fotos de Cuba, uma leitora implorou: por favor, pare de fotografar pobreza, ¡esse negócio de glorificar pobreza é coisa de intelectual! (...)

Gran Teatro de la Habana

Se minha leitora conhecer qualquer coisa em Havana que não tenha sido tocada pela pobreza generalizada do país, por favor, me dê o endereço correndo: eu juro que, se não for nada secreto, tipo a residência de verão do Fidel, eu fotografo de todos os ângulos.

Giselle

Por conta própria, até agora eu juro que ainda não encontrei. (...)

Passei por todas as bailarinas comendo, se maquiando, se ajeitando. Cruzei as entranhas do balé cubano. (...)

Photographing the Ballerinas

Gosto de balé e ópera não pelo que são, mas pelo que foram. Quem vê essas duas formas de arte hoje, tão conservadoras e moribundas, não imagina o impacto cultural do seu vanguardismo. O balé e a ópera foram o rock e o jazz do seu tempo. Os grandes compositores clássicos já causaram tanto escândalo quanto os Beatles, Elvis Presley e Louis Armstrong. Hoje, no ocidente, Beethoven é música de elevador, mas suas obras são proibidas no Irã. Claramente, os aiatolás vêem uma força transgressora em Beethoven que nós já não sentimos mais.

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Famílias Latinas

Radical Rebelde Revolucionário

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Depois que Annie foi embora, Rosa, a dona da casa onde nos hospedamos, começou a ficar cada vez mais possessiva e maternal, me chamava de "meu filho brasileiro" e me mimava o tempo todo.

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Ché, Fidel e a Revolução

Radical Rebelde Revolucionário

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Que Somos y Que Seremos

Jamas Entregaremos la Revolucion ni el Socialismo

Hasta La Victoria Siempre

Infelizmente, os cubanos só vão se dar conta do valor das conquistas da Revolução quando derrubarem toda a sua estrutura e, no mês seguinte, chegarem as contas de luz, gás e telefone reajustadas, a primeira parcela do plano de saúde, a nova mensalidade escolar e o boleto do aluguel cobrado pelo dono original do prédio que acabou de chegar de Miami.

Que Es Revolucion

Somos Uno

Han Liberado a un Terrorista

Os erros e os acertos da Revolução Cubana estão atualmente em exposição, em todo o território nacional, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Promoção por tempo limitado. O homem é duro na queda, mas não vai durar pra sempre. ¡Aproveitem já!

Venceremos

Una Gran Revolucion Solo Puede Nacer de un Gran Sentimiento de Amor

Tu Ejemplo Vive

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Reinaldo Arenas e Cecília Valdés

Radical Rebelde Revolucionário

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Sentado nas confortáveis poltronas da Sala Cubana e lendo o romance de Arenas, eu via Dolores andar pela biblioteca com sua pisada forte de dona, unhas à francesinha em tamancos salto alto e pernas escapando pelas fendas dos pantalones, e pensava: mesmo se eu voltar à biblioteca, mesmo se ela ainda trabalhar aqui, sabe-se lá que uniforme horrível cobriria aquela barriguinha. Uma verdadeira heresia.

Em silêncio respeitoso e contemplativo, tal qual um suplicante diante da perfeita estátua de uma deusa grega, eu me despedi daquelas pernas sem fim e daquele umbigo arrebitado.

Adeus, Cuba.

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Viajando Junto com o Alex

Radical Rebelde RevolucionárioPaula Lee é inteligente, articulada e uma boa amiga. Ela é brasileira, mora em Portugal e acabou de lançar o livro Alugo meu Corpo, sobre sua iniciação na prostituição. Eis o que Paula teve a dizer sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas:
Bem no início do livro Radical Rebelde Revolucionário, uma obra resultante da viagem do Alex Castro para Cuba, em função de duas bolsas de pesquisa, o autor deixa o aviso:«À exceção dos fatos narrados em primeira pessoa, não confiem nas informações deste livro».

Tenho que aqui dizer que acredito em tudo o que o Alex Castro contou nesse livro. Por ingenuidade cega? Teimosia? Nenhuma das opções. Porque a verdade do livro não está nas provas, nos documentos, nem nos tão falados e incredíveis jornais de Cuba, descritos no livro. A verdade do livro está naquilo que o Alex viu, o que ouviu, tocou, cheirou, comeu, sentiu. Está naquilo que o Alex viveu em Cuba, não enquanto turista, mas enquanto descobridor, enquanto pesquisador, enquanto parte integrante do local, não apenas estudando a cultura de um povo, mas experimentando e tentando viver como um cubano, apesar de todas as divisões e limitações ali existentes.


E afinal o que importa a verdade num país que nem parece ser de verdade? Definir como verdade ou não o que está escrito no livro, seria anular tudo o que o Alex sentiu na sua “viagem-integração”. Independente de as informações por ele recebidas serem ou não verídicas, a verdade é, por si só, aquilo que viveu e sentiu, e isso ninguém pode lhe roubar.

O Alex não foi para Cuba para conhecer uma nova terra, mas para conhecer um novo povo. Depois de Fidel, a primeira coisa que vem na minha cabeça quando a palavra Cuba é pronunciada é a minha paixão pelas danças latinas, especificamente a salsa. Tanto que, quando o Alex viajou, enviei-lhe um e-mail a dizer: dance salsa por mim.

«Na verdade, pensando bem, não confiem em nada, especialmente na minha narração em primeira pessoa. Este é um livro de ficção. Nenhuma das pessoas citadas existe. Nem eu. Todos os nomes de cubanos foram tirados do romance Cecília Valdés (1882), de Cirilo Villaverde. Não existe nenhum país chamado Cuba, nenhum presidente chamado Fidel Castro. Sério, vocês acreditaram mesmo que existia Cuba? Tolinhos.»

Mas o livro Radical Rebelde Revolucionário tem muito mais do que Fidel e salsa. Quando o Alex me puxou pela mão e me deixou em Cuba, eu disse: «Não ouse me abandonar, Alex, não me deixe aqui sozinha!». Primeiro porque nem parece existir um país assim. É tudo muito irreal, ao mesmo tempo que soa tão verdadeiro, já que a verdade está em tudo aquilo que jamais poderia imaginar. Em segundo lugar porque só o Alex teria tanta desenvoltura para entrar dentro de Cuba, não como qualquer um entra como turista, mas entrar de verdade, de corpo, alma e charuto, para me apresentar o país. Quem diria que, no país onde sonhava ir dançar salsa, fosse descobrir tantos conflitos? E, mesmo assim com tantos conflitos, contrastes, limitações e miséria, Cuba fosse assim tão especial, tão quente?

Receei que em certa altura o Alex fosse largar a minha mão e dizer: “Se vira!”. Mas não, em momento algum ele fez isso. O Alex começa por me apresentar uma mulher tão segura que, nos tempos de hoje, parece não existir, juntamente com um país que parece obra de um artista cheio de imaginação. E me apresentou a moeda, e me fez também montar os pedaços do abacaxi, como num quebra-cabeças, para conferir se faltava alguma parte, me mostrou os livros proibidos da biblioteca nacional, me apresentou o cinema cubano, me fez quase fugir das casas de banho, se não estivesse tão apertada para fazer chichi.
Radical Rebelde Revolucionário

A escrita do Alex foi fazendo com que caminhasse por cada rua, conversasse com cada pessoa, inclusive os jiniteiros. E suas análises mais uma vez brilham, porque mostram várias faces de situações que muitas pessoas só enxergariam de uma única forma.

Mesmo se você não tiver o mínimo interesse por Cuba, aconselho a viagem. Porque no Radical Rebelde Revolucionário a gente até se esquece que está lendo na tela do computador, porque estamos, na verdade, viajando junto com o Alex.
Paula, muito, muito obrigado! E você? Já comprou seu exemplar?

Observações de Acadêmico com Sacadas de Adolescente Velho

Sergio Leo, colunista do Valor, jornalista prestigiado, blogueiro polêmico, também leu meu Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas e escreveu uma resenha absolutamente elogiosa:Radical Rebelde Revolucionário
Hummm, relato de viagem sobre Cuba está em uma das últimas prateleiras de minha lista de prioridades, mas vamos ver o que tem aí, pensei eu, ao abrir o arquivo com o livro do Alex. Pé de pato mangalô tres vezes; tirei o computador da tomada antes que o capeta me pegasse e eu não conseguisse mais tirar os olhos da mardita obra.
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Alex tem um texto brilhante, claro, divertido, engraçado. Mistura observações de acadêmico com sacadas do adolescente velho que é. Não é livro a favor de Fidel Castro, asseguro. Nem é uma diatribe contra o dito-cujo; é um relato de viagem, de um cara inteligente, bem escrito, e interessante até para quem não pensa em passar nem perto de Cuba.
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Até onde li, fala de uma moça que o acompanha na viagem (quem nunca viajou ao lado de uma mulhar inalcançável que atire a primeira calcinha), conta detalhes a favor e contra a ilha de Fidel Castro. Explica como o sistema de subsídios da ilha e sua proverbial carência de bens de primeira necessidade estimula a abordagem dos jornais oficiais com outros olhos (ou falando mais claro: jornal, em Cuba, é muito mais barato que papel higiênico, que nem sempre tem. Daí...).
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Tem até filosofia no livro ("confie em todos, mas corte o baralho", já dizia sabiamente a avó do Alex, que é Castro mas não tem nada a ver com o Fidel). Imagens, como as que ele usa para descrever os óculos cor-de-rosa da imprensa cubana são uma das especialidades dele.
Sergio, muito, muito obrigado. Sei que você é um leitor exigente e sem tempo, seus elogios significam muito pra mim.

E você? Ficou curioso pra ler mais?

Lança, Cuba, Lança! Quero ver Cuba lançar!

Marmota, grande amigo, jornalista esportivo, blogueiro, companheiro de noitadas insólitas em São Paulo, quase leu meu livro Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas e teve isso a dizer:Radical Rebelde Revolucionário
Paula Pettavino (...) viveu cinco anos no país em função de sua tese de doutorado, que confronta o desempenho cubano em competições esportivas com o sistema político da ilha. Mas é possível dispensar a literatura acadêmica para entender o que se passa por lá - Alex Castro que o diga.

Eu sempre digo, em tom de brincadeira, que "preciso visitar Cuba antes que acabe". Minha vontade só aumentou quando vi, por alto, algumas das crônicas (recheadas de imagens) escritas pelo Alex em seu Radical Rebelde Revolucionário. Não é um tratado político/social, muito menos um guia turístico: são histórias deliciosas de pessoas pobres, porém cultas, que não enxergam a vida com uma postura de esquerda ou de direita. É a vida deles, ponto final.

Ainda não consegui ler como gostaria, mas logo nas primeiras linhas, uma ressalva sensacional: são textos baseados em sensações absorvidas em uma imersão de um mês em Cuba. Portanto, tudo que está escrito é ficção - como parece ser a própria história da última nação socialista do globo. Afinal, "se tivessem o mínimo de bom senso, saberiam que a história de Cuba é impossível demais para ser verdade".

Quer outro motivo para descobrir Cuba sob o olhar inteligente e irônico do Alex? Em 155 páginas, não existe uma única referência a esportes. É tudo o que você precisa para fugir da overdose pan-americana.
Isso lá é verdade. Nunca vão encontrar esportes nos meus livros. Mas tem uma breve menção (e muitas fotos) de um treino fechado de boxe onde entrei graças ao meu amigo bozó, Candido.

E você? Ficou curioso pra ler mais?

Por Que Che Não Escreveu Isso Antes?

Meu hilário amigo Adaílton Persegonha, do Leite de Pato, também escreveu seu depoimento sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas:Radical Rebelde Revolucionário
Pronto, lá vem Titio Persegonha falar mal de comunista outra vez… Bom, apesar de eu achar que isso seja função social de quem não toma sorvete pela testa, não é nada disso. O blog é do meu caro amigo Alex Castro. De liberal, libertário e libertino (não necessariamente ordem) a radical, rebelde e revolucionário há uma grande distância. Não para a pena de Alex.

Alex foi a Cuba. E de lá nos trouxe as suas deliciosas, saborosas crônicas cubanas (não tão saborosas quanto Annie, sua companheira de viagem, presente no livro, mulher pela qual qualquer um se apaixona à primeira lida). E o legal de seu texto é exatamente a forma de descrever o dia-a-dia da ilha de Dom Fidel. Sem carregar nas tintas ideológicas - tanto para um lado, quanto pro outro. É um livro para aturdir esquerdistas e direitistas.

Foi com enorme prazer que li os originais do livro de Alex. Aliás, faltam algumas páginas, mas o desfilar de seus personagens reais, a paisagem de um país perdido entre o presente, o passado e um futuro sempre incerto, as confusões de suas diversas moedas, sua crítica ácida (e ranzinza no meu modo de ver) do turismo sob a batuta do seu imenso poder de observação e objetividade me fizeram ter um sonho: ver este livro lançado em território cubano!
Valeu, Persegonha! Agora só falta você comprar.

Chato, Crítico e Cínico

O simpaticíssimo Doni leu meu livro Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas e me fez elogios que me deixaram emocionado:Radical Rebelde Revolucionário
Cuba é a prova cabal de algo sobre as pessoas que eu, lento que sou, só fui aprender após alguns semestres de Psicologia: a grande maioria de nós apenas vê aquilo que quer ver. Os fatos não importam nada, pois haverá quase sempre um filtro moral ou ideológico que nos impedirá de enxergar mesmo. Ruim? Eu acho, mas a maioria de nós precisa disso, das verdades mastigadas que tornam a vida mais simples. Afinal, é muito mais fácil lidar com a dicotomia “nós x eles” do que com o absurdo da nossa imprevisibilidade.

Meus conhecidos “de esquerda”, mesmo quando voltam de visitas a Cuba, apenas falam das maravilhosas conquistas da revolução, de como aquele povo sofrido conquistou a dignidade, a igualdade e o direito de andar de cabeça erguida. É a terra prometida aos filhos de Trotsky. Já os “de direita”, você sabe, vão atentar para o fato de que o regime de Fidel Castro nada mais é que uma ditadura e que a população é sufocada em sua liberdade de expressão e etc. Os debates são como brigas de torcida, onde apenas valem as crenças e preconceitos de cada grupo, naturalmente melhores e verdadeiras.

Alex Castro é outro tipo de pessoa, tão ou mais irritante que os já citados, para ser sincero. Seja ele visto como um liberal libertário ou como um rebelde revolucionário, ele na verdade é um chato, crítico e cínico. É exatamente por isso que eu o acho a pessoa mais “confiável” para falar sobre Cuba, por mais que ele mesmo deixe claro já no início de seu livro Radical Rebelde Revolucionário que talvez nada do que ele relata nas 155 páginas seguintes seja verdade. É um bom começo.

Alex é curioso por natureza. Sua “vida burguesinha entre os shoppings da Barra da Tijuca” poderia tê-lo transformado no turista padrão, incapaz de ir além de seu mundinho, mas o leitor poderá perceber em diversos momentos que por mais que o ato de viajar seja custoso para ele, desconfortável, mais desconfortável ainda é não saber, não conhecer a fundo as pessoas. Assim, ele se torna um descobridor de histórias e de contradições.

A Cuba descrita em seu livro é feita de relações humanas, econômicas e afetivas, e não há maneira melhor de se estudar um povo. A narrativa é irônica, mas não sabemos se a ironia é a típica do autor ou está nas situações: Antes, gritavam aos exilados: “traidores!”. Hoje, o grito é outro: “trae dólares!".

Tudo é paradoxal em Cuba. Meu momento favorito é quando ele fala de como é a imprensa estatal: “noticiar crimes, por exemplo, não está entre as tarefas de uma imprensa revolucionária. Poderia haver um serial-killer solto em Havana, com havaneiros tropeçando em corpos para chegar à banca de jornais, e não haveria nem uma linha sobre isso no Granma”. E de como o povo lida com isso: “Talvez vocês não tenham percebido a enorme ironia da situação. Se Cuba tivesse um povo largamente ignorante e semi-alfabetizado (como o brasileiro, por exemplo), pode até ser que engolissem tudo o que o governo diz. Entretanto, esse mesmo governo educou brilhantemente sua população no método científico, no materialismo dialético e no pensamento crítico. Ou seja, a prova de que a educação estatal funciona é justamente o fato de a população não acreditar na imprensa estatal”. Perfeito até ao falar do Brasil. Alex criou um livro cheio de belas referências, crítico, mas também poético e belo: “mãe, o moço quer tirar fotos dos meus pés. Tem problema?".

A conclusão? “Alguns estrangeiros ignorantes ou preconceituosos dizem que não tem nada em Cuba. O governo diz que tem de tudo. A verdade está no meio”. O gostoso mesmo é compartilhar com ele cada uma das situações que o fizeram chegar a essa verdade, ou ilusão, quem sabe?
Obrigado, Doni! E você? Não vai ler?

A Falta dos Violinos

Linda, inteligente, grande amiga, não-blogueira, Alessandra Souza também escreveu um não-post em seu não-blog sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas:
O que eu mais gostei no RRR é a total ausência de trilha sonora de violinos. Sabe, aquela música triste que a gente sempre ouve na parte dramática dos filmes? Em nenhum momento, nem os que descrevem os aspectos mais difíceis da vida dos mais maltratados dos cubanos, minha cabeça produziu a trilha dos violinos tristes.

Isso porque, mesmo que seja de certa maneira “um retrato verdadeiro e sem disfarces da vida cubana e do sofrido, porém digno e corajoso povo de Cuba”, eca!, o livro é divertido. Muito divertido. Mais ainda se você conhece o Alex e consegue imaginar ele se passando por cubano na fila da sorveteria, paquerando a bibliotecária ou - a melhor de todas - aplicando o “contrajineteio” (tem que ler para entender).

Claro, se você precisa conhecer o autor para aproveitar a obra, é sinal que o livro não é tão bom assim. Apesar do que eu acabei de dizer, RRR não tem esse problema. Ele vale pelo que é: o relato da viagem de uma pessoa inteligente, observadora, mundana e praticamente sem vergonha na cara para um lugar que já é especial por várias razões.

Ainda por cima, o livro está lindo. Sério mesmo, a edição ficou o máximo, cheia de fotos ótimas que o Alex tirou por lá e é muito confortável para ler na tela – isso porque eu não gosto de ler nada mais longo que um conto no computador. Recomendado.
E então? Vai ficar só você sem ter lido?

Ah, e não conhece o não-blog da Alessandra, eu recomendo.