O simpaticíssimo Doni leu meu livro
Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas e me fez
elogios que me deixaram emocionado:

Cuba é a prova cabal de algo sobre as pessoas que eu, lento que sou, só fui aprender após alguns semestres de Psicologia: a grande maioria de nós apenas vê aquilo que quer ver. Os fatos não importam nada, pois haverá quase sempre um filtro moral ou ideológico que nos impedirá de enxergar mesmo. Ruim? Eu acho, mas a maioria de nós precisa disso, das verdades mastigadas que tornam a vida mais simples. Afinal, é muito mais fácil lidar com a dicotomia “nós x eles” do que com o absurdo da nossa imprevisibilidade.
Meus conhecidos “de esquerda”, mesmo quando voltam de visitas a Cuba, apenas falam das maravilhosas conquistas da revolução, de como aquele povo sofrido conquistou a dignidade, a igualdade e o direito de andar de cabeça erguida. É a terra prometida aos filhos de Trotsky. Já os “de direita”, você sabe, vão atentar para o fato de que o regime de Fidel Castro nada mais é que uma ditadura e que a população é sufocada em sua liberdade de expressão e etc. Os debates são como brigas de torcida, onde apenas valem as crenças e preconceitos de cada grupo, naturalmente melhores e verdadeiras.
Alex Castro é outro tipo de pessoa, tão ou mais irritante que os já citados, para ser sincero. Seja ele visto como um liberal libertário ou como um rebelde revolucionário, ele na verdade é um chato, crítico e cínico. É exatamente por isso que eu o acho a pessoa mais “confiável” para falar sobre Cuba, por mais que ele mesmo deixe claro já no início de seu livro Radical Rebelde Revolucionário que talvez nada do que ele relata nas 155 páginas seguintes seja verdade. É um bom começo.
Alex é curioso por natureza. Sua “vida burguesinha entre os shoppings da Barra da Tijuca” poderia tê-lo transformado no turista padrão, incapaz de ir além de seu mundinho, mas o leitor poderá perceber em diversos momentos que por mais que o ato de viajar seja custoso para ele, desconfortável, mais desconfortável ainda é não saber, não conhecer a fundo as pessoas. Assim, ele se torna um descobridor de histórias e de contradições.
A Cuba descrita em seu livro é feita de relações humanas, econômicas e afetivas, e não há maneira melhor de se estudar um povo. A narrativa é irônica, mas não sabemos se a ironia é a típica do autor ou está nas situações: Antes, gritavam aos exilados: “traidores!”. Hoje, o grito é outro: “trae dólares!".
Tudo é paradoxal em Cuba. Meu momento favorito é quando ele fala de como é a imprensa estatal: “noticiar crimes, por exemplo, não está entre as tarefas de uma imprensa revolucionária. Poderia haver um serial-killer solto em Havana, com havaneiros tropeçando em corpos para chegar à banca de jornais, e não haveria nem uma linha sobre isso no Granma”. E de como o povo lida com isso: “Talvez vocês não tenham percebido a enorme ironia da situação. Se Cuba tivesse um povo largamente ignorante e semi-alfabetizado (como o brasileiro, por exemplo), pode até ser que engolissem tudo o que o governo diz. Entretanto, esse mesmo governo educou brilhantemente sua população no método científico, no materialismo dialético e no pensamento crítico. Ou seja, a prova de que a educação estatal funciona é justamente o fato de a população não acreditar na imprensa estatal”. Perfeito até ao falar do Brasil. Alex criou um livro cheio de belas referências, crítico, mas também poético e belo: “mãe, o moço quer tirar fotos dos meus pés. Tem problema?".
A conclusão? “Alguns estrangeiros ignorantes ou preconceituosos dizem que não tem nada em Cuba. O governo diz que tem de tudo. A verdade está no meio”. O gostoso mesmo é compartilhar com ele cada uma das situações que o fizeram chegar a essa verdade, ou ilusão, quem sabe?
Obrigado, Doni! E você?
Não vai ler?
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