As Jineteiras (Texto Completo)

Radical Rebelde Revolucionário

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Jacques e sua Jineteira

Alguns jineteiros até oferecem putas, do mesmo modo como oferecem charutos, mas são duas coisas diferentes: jineteira não é puta, puta não é jineteira. Puta é quem transa por dinheiro. Uma jineteira, se cobrar por sexo, não é mais jineteira: é puta.

Rosa, a dona da casa onde estou, não cansa de me advertir contra as implacáveis jineteiras. Morre de medo de eu trazer uma jineteira pra casa e ela fugir com meu dinheiro, meu passaporte e meu computador - e talvez minha honra. Conta uma história de horror atrás da outra, casos exemplares de estrangeiros bobos que sofreram nas mãos de cubanas perversas. Por exemplo, o pobre e inocente francês Jacques e sua malvada jineteira Adela.

Jacques era francês, setenta anos, empresário. Vinha a Cuba três ou quatro vezes por ano, sempre por um mês. Em uma de suas viagens, se apaixonou por Adela, uma sinuosa mulata cubana de vinte e poucos:

Você não imagina, Alexandre, ¡como o homem era devotado! ¡Fazia tudo por ela! Cada vez que vinha da França, trazia uma mala de roupas, perfumes, comidas exóticas, presentes. Mandava cem euros por mês. Comprou um computador pra ela. Levava Adela para os melhores restaurantes de Havana - e ela ainda dava um jeito de conseguir comissão em cima do coitadinho. Nesse meio tempo, enquanto ele estava na França, ela aproveitava pra dar pra todos os homens de Havana. ¡Um absurdo! Até que arranjou um outro turista e não quis mais saber dele. Jacques ficou aqui semanas, de coração partido, ¡chorando no meu ombro! ¡Pobrezinho!

Mas ¿quem estava jineteando quem? Rosa ficava horrorizada de ver Adela se gabando para as amigas cubanas do velho francês broxa que lhe mandava cem euros por mês, mas eu fico imaginando outra conversa:

Vocês não sabem como é fácil! Pra começar, eu mando uma merreca por mês pra ela ficar feliz, menos do que custaria um jantar com bom vinho mais teatro em Paris. Então, antes de embarcar pra Cuba, peço pra minha secretária passar no saldão da Galeries Lafayette e comprar as roupas da última estação, os perfumes mais baratos, meia dúzia de latinhas de foie gras, uns espelhinhos, e pronto. Vocês precisam ver a cara dela quando abre a mala. Parece que é um tesouro. Depois, a gente transa a noite toda. E ela não é que nem essas putas frias fedidas do Bois de Bologne, não. Ela faz com amor, com calor, com ardor. Sério, mulher latina é o máximo, vocês deviam arranjar uma também. Quem diria que, depois dos setenta, ¡eu ainda iria ter uma mulher dessas!

Se Adela só se aproximou de Jacques atrás dos seus euros, Jacques também só se aproximou de Adela atrás de sua sensualidade latina, de sua juventude quente, de sua bunda de mulata. Qualquer relação humana, desde parceria comercial até amizade, só funciona quando ambas as partes estão obtendo algo que desejam. É sempre ida e volta. Senão, caímos naquela falácia tão brasileira de achar que existe corrupto sem corruptor, homossexual passivo sem ativo.

Mas Alexandre, responde Rosa, e as semanas que ele ficou aqui desolado, ¿chorando no meu ouvido?

Olha, das duas uma: ou ele enganou a si mesmo, esqueceu as regras do jogo e se deixou acreditar em amor verdadeiro a essa altura do campeonato, ou, mais provável, foi apenas a dor normal do pé na bunda. ¿Quem nunca perdeu ninguém? O outro turista deveria ser mais novo, mais bonito, mais rico, menos broxa. Eu bateria no ombro de Jacques e diria: calma, velho, na próxima esquina tem outra cubana quente, gostosa e precisando dos seus euros. Bola pra frente e Viagra na veia.

Tenho uma amiga brasileira que diz sinceramente não entender porque cargas d'água ela sairia com um homem que não lhe pagasse tudo. Pra ela, isso não faz o menor sentido. Ora, se for pra eu mesma pagar, saio sozinha ou com minhas amigas.

Em Cuba, seria tachada de jineteira. No Brasil, é somente uma mulher à moda antiga.

Somos Todos Jineteiros

Agora, finalmente, sei como se sente uma mulher bonita.

Sei como é a sensação de não poder andar daqui até ali sem ser abordado por alguém que eu não conheço, de intenções duvidosas. Sei como é a sensação de não poder sentar quieto num banco de praça ou num bar sem alguém sentar do meu lado de papinho-furado, me perguntando quem eu sou, o que faço ali, qual é meu signo. Sei como é a sensação de ter que decidir em meio segundo se é apenas um cubano extrovertido com quem eu quero bater-papo ou se é um jineteiro pentelho que eu quero despachar. Sei como é a sensação canalha mas tentadora de calcular se consigo tirar dele o que eu quero (no meu caso, umas dicas interessantes, no dela, um drinque, um almoço) sem ter que necessariamente lhe dar o que quer (meus dólares, um beijinho, sexo).

Ser uma mulher bonita é ser jineteada todo dia.

Quando eu abordo uma cubana na biblioteca pra saber o que está estudando, poxa, que interessante, ¿quer tomar um café comigo ali na esquina?, ¿quem sabe me deixar beijar seus pés?, qual a diferença disso pro cubano que me aborda na rua, me pergunta de que país eu sou, ¿Brasil?, que legal, adoro o Brasil, ¿você quer charutos?, ¿por que não vamos pro restaurante do meu amigo aqui perto conversar?

¿A mulher que se aproxima de um turista porque vê nele uma fonte possível de dinheiro fácil é diferente do turista que se aproxima da nativa porque vê nela uma fonte possível de sexo fácil? ¿Quem é o jineteiro? ¿Quem está jineteando quem? ¿Quem está enganando quem? ¿Tem alguém enganando alguém?

Somos todos jineteiros.

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4 comentários:

nayara said...
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yuna . said...

otimo post!
amei o texto!

Mário Marinato said...

Excelente questionamento no final.

Me fez lembrar daqueles momentos em que, segundos antes de criticar alguém, vejo que, ao fazer a crítica, eu me torno alvo dela.

E então, ao descobrir que também sou um jineteiro, calo a boca antes mesmo de começar a falar.

Anonymous said...

pues es como tu dices , yo aqui soy una cubana en portugal y buscando la gente encuentra , estas a criticar las cubanas pero las brasileras y brasileros no se quedan atras,,,y no solo roban matan tambien...