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Dionisio, um chileno estudando música aqui em Cuba, fica profundamente irritado com as abordagens na rua, com as perguntas pessoais incessantes, com as ofertas não-solicitadas. Se sente atacado, invadido, explorado. Não dá papo. Sai andando. Às vezes, se vira e pergunta, já de punho em riste: ¿Te conheço? ¿Com que direito me pergunta essas coisas?
Ele tinha reserva em uma casa particular, mas, quando chegou, estava alugada. O solícito dono da casa pediu mil desculpas e lhe recomendou outra. Na segunda casa, Dionisio pagava 15 pesos conversíveis por dia (15 CUC = R$ 36): dez para a anfitriã e cinco de comissão para o dono da primeira casa. Ao longo dos dois meses em que Dionisio ficou em Havana, o cubano ganhou uma pequena fortuna (300 CUC = R$ 720, 36 vezes o salário mínimo) em recompensa pela falta de consideração de ter reserva com uma pessoa e alugar pra outra. Naturalmente, Dionisio só foi saber disso ao final da sua estadia, mas qualquer guia vagabundo sobre Cuba avisa sobre esse esquema já na primeira página.
Dionisio é uma figura típica. O homem se acha muito malandro e esperto ("street-wise" e "street-smart", diz ele), reclama sem parar que todos em Cuba são exploradores e jineteiros (pô, colega, se não gostou de nada e não se sente bem, faça o que os cubanos não podem fazer e ¡vá embora!), não se abre a novas amizades e não dá papo a nenhum cubano (claro, ¡pois todos querem fazê-lo de otário!), reage agressivamente aos jineteiros que lhe oferecem charutos na rua (quando bastava dizer "não" e ¡pronto!) mas, no fim das contas, perdeu 300 CUC em um esquema que já era velho quando Lot hospedou Abraão em Sodoma.
Eu até entendo a agressividade de Dionisio. É exasperante saber que uma parte da população nos vê somente como máquinas de extrair dólares. No começo, eu também não dava papo para os malucos que me abordavam na rua. Agora, tento explicar ao Dionisio que ele está perdendo uma parte importante da sua experiência cubana.
Annie me ensinou a ser mais aberto: se confio na minha capacidade de dizer "não", posso dar papo pra qualquer um. Respondo a todas as perguntas, bato papo, pergunto sobre suas vidas, sento com eles nos parques ou no Malecón - a muralha à beira-mar que protege Havana das ondas dos furacões. E, quando pedem algo que eu não posso ou não quero dar, basta dizer "não". Pronto. Ninguém precisa fechar a cara e ser grosso para não ser roubado. Annie foi muito mais assediada que ele, por ser mulher, loira, branca e gringa; nunca disse uma palavra rude a nenhum dos cubanos que tentaram exaustivamente explorá-la, e não caiu em um único golpe.
Em Cuba, pelo menos, a violência contra o turista praticamente inexiste. Existem pedidos e pedidos: se sou abordado em uma ruela escura do French Quarter ou de Copacabana por um sujeito mal-encarado que me pede vinte pratas, eu dou. Não tem nem conversa.
Os cubanos pedem, mas não há nenhuma ameaça implícita. Dionisio não entende essa enorme diferença.
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Dionisio, Um Chileno Malandro (Texto Completo)
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