Fumar em Cuba (Texto Completo)

Radical Rebelde Revolucionário

Abaixo, o texto completo. Para ler os outros textos desse livro, compre o ebook Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas, à venda pela internet por apenas R$20.

* * *

Voei para Cuba lendo o "Contrapunteo Cubano del Tabaco y del Azúcar" (1940), de Fernando Ortiz, uma obra-prima ao mesmo tempo acadêmica e literária, linda, belíssima, original, explicativa, poética. Algo assim como o "Casa-Grande & Senzala" cubano. O livro em si é pequeno, tem menos de cem páginas, mais outras 500 de apêndices e complementos. Ortiz traça um paralelo entre o açúcar e o tabaco em Cuba, mostrando como o cultivo de cada produto engendrou uma cultura totalmente diferente, desde a economia até a organização do espaço. O autor não esconde sua predileção: para ele, o açúcar é conservador, reacionário, capitalista, monopolista, enquanto o tabaco é rebelde, individualista, libertário, revolucionário. O livro é uma ode de amor ao tabaco do começo ao fim. Quando pousei no Aeroporto Internacional José Martí, eu estava simplesmente seco por um bom charuto.

La Envidia Es La Peor de Todas las Brujerias

Pois bem, desembarco em Havana e o primeiro cheiro que sinto é o de charuto. Sim, Cuba é um país onde se fuma charuto dentro do saguão do aeroporto. Eu tive vontade de beijar o chão. Estou em casa.

Se você odeia gente soprando fumaça na sua cara, se não quer cheiro de cigarro na sua roupa, se acabou de parar de fumar pela qüinquagésima vez e não quer tentações, Havana realmente não é pra você. Vá visitar São Francisco, na Califórnia, uma cidade maravilhosa que me recebeu de braços abertos quando fugi do Furacão Katrina. Em São Francisco, não se pode fumar livremente nem ao ar-livre, muitas vezes nem em sua própria casa. Parece que a Câmara Municipal está prestes a aprovar uma lei autorizando o linchamento sumário de qualquer um que ouse acender um cigarro em público. Periga de ser aclamada por unanimidade.

Old Habaneros and Their Impossibly Long Cigars

Naturalmente, em Cuba, as pessoas não só fumam. Elas fumam umas toras de trinta centímetros de comprimento que parecem desafiar a própria lei da gravidade. Deus parece ter modificado a física somente para que os cubanos possam fumar seus puros. E fumam o tempo todo. Na Biblioteca Nacional José Marti (sim, o mesmo nome do aeroporto), até mesmo na sala de periódicos antigos se fuma. Lá estava eu, consultando jornais do século XIX e um cubano ao meu lado calmamente degustando seu charuto.

Até agora, o único lugar onde não vi gente fumando foi no cinema. Fui assistir "La Noche de Los Inocentes", no Cine Payret, em frente ao Capitólio Nacional. É o novo filme de Jorge Perrugoria, de "Fresa y Chocolate" e "Guantanamera", um ator que já se tornou um dos meus favoritos de todos os tempos. Diga-se a bem da verdade, ninguém fumou no cinema. Talvez porque não havia ar-condicionado e estava tão quente que bastariam uns cinco charutos acesos para matar todas as centenas de pessoas sufocadas. Ou vai ver é proibido. Mas, confesso, proibir alguém de fumar já me parece uma das atitudes mais anti-cubanas que alguém poderia ter.

Ainda assim, entretanto, não ficamos longe do fumo. O filme inteiro se passa em um quarto de hospital: ao mesmo tempo em que um jovem travesti luta pela vida depois de uma surra violenta, um policial interroga seus familiares em busca da verdade sobre o crime. E imaginem se algum deles, o detetive ou os familiares, em uma situação tão tensa como essa, verdadeiro jogo de gato-e-rato policial, deixaria de acender seus cigarros e charutos! Valha-me deus!

Eu, dependendo da minha roupa e do meu jeito, já aprendi que posso passar por turista ou por cubano. Até abrir a boca, claro - o meu sotaque me entrega. No começo, me paravam na rua a cada cinco minutos me oferecendo Cohibas e Romeus & Julieta legítimos. Agora, entretanto, já aprendi a passar por nativo. Na bodega da minha esquina, vendem uns charutos El Crédito ou Cacique por um peso cubano, ou seja, dez centavos de real, do tipo que fumam os cubanos não-membros do Partido. Tudo bem que não devem ser lá os melhores do mundo, mas se são bons o suficiente para o povo que inventou o charuto, então são bons o suficiente pra mim.

O que não se encontra em Cuba é fumo pra cachimbo. Já aprendi que não posso nem dizer que fumo cachimbo. Fumar charutos de um peso me faz ganhar uns pontos como estrangeiro esperto. Fumar cachimbo me faz perder esses pontos todos e mais alguns. Para a cultura fumante cubana, fumo para cachimbo, ou picadura, como chamam, é a xepa da xepa, o pior do pior fumo, aquele fumo ralo, esfarelado que não serviu pra ser usado nem no pior charuto. Coisa que gente ignorante que não sabe fumar, dizem.

E eu acrescento rápido: sim, era encomenda para uma amiga, veja só, que besteira, ¡achar que os cubanos fumariam uma coisa horrível dessas!

Ou, como diria o sapo, ¡coitado do jacaré!

* * *

Para ler os outros textos desse livro, compre o ebook Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas, à venda pela internet por apenas R$20.

2 comentários:

Ni said...

eu me senti no paraíso quando cheguei em Havana e vi que poderia fumar em qualquer lugar...saudade de cuba ;)
abraços

Mário Marinato said...

Rapaz taí uma coisa que vai me incomodar muito se eu for em Cuba algum dia. Acho que vou passar muito tempo no cinema.

Agora... tem como explicar essa história de ¡coitado do jacaré! ?