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Eu queria partir direto pras crônicas, contar minhas aventuras e falar dos cubanos que conheci, mas, para que vocês possam entender as histórias, preciso antes explicar duas coisas que dominam o dia-a-dia na ilha: o Período Especial e a situação monetária. Talvez seja um pouco chato, e vai ter muito número, mas venham comigo que depois vai valer a pena.
O Período Especial e seu Apartheid
A Revolução Cubana ia muito bem, obrigado, até a queda da União Soviética, em 1991. A bolha artificial de prosperidade subsidiada pelos russos, para manter um foco de comunismo nas barbas do Tio Sam, sumiu do dia pra noite e os cubanos tiveram que se tornar verdadeiramente auto-suficientes. Fidel colocou a economia em estado de guerra por tempo indeterminado, o Período Especial que se estende até hoje, e mandou o povo apertar o cinto. 1992 e 1993 são lembrados como os piores anos da história recente, mas agora as coisas vão melhorando. De qualquer modo, o Período Especial ainda não acabou. Tudo em Cuba se divide em antes e durante o Período Especial.
Para sobreviver, a Revolução precisou se adaptar. Em primeiro lugar, o governo começou timidamente a promover o turismo como meio de trazer divisas, o que causou uma dolarização da economia. A propriedade privada de pequenos negócios, proibida desde 1968, foi timidamente re-autorizada, especialmente em áreas de apoio ao turista. Durante mais de vinte anos, os cubanos não podiam ser donos nem da barraquinha de cachorro-quente da esquina. Surgiram então os Paladares (cujo nome vem do restaurante da Raquel na novela "Vale Tudo", de 1988), pequenos restaurantes improvisados, funcionando na casa dos seus donos, geralmente em um quarto de frente pra rua ou na sala. Para servir à crescente demanda do turista, autorizaram-se também casas particulares a alugar quartos para estrangeiros. Estou hospedado em uma dessas. Ao mesmo tempo, o governo buscou restaurar edifícios e monumentos de interesse turístico. O centro histórico de Havana, então completamente abandonado e quase em ruínas (algo como o bairro da Saúde, no Rio), começou a ser recuperado. Heresia das heresias, permitiu-se até a existência de empresas mistas, de capital cubano e estrangeiro, para a construção, restauração e manutenção de hotéis.
Mas como conciliar uma Revolução austera e estóica, baseada em auto-sacrifício em nome do bem comum, ¿com hordas de turistas brancos e gordos gastando dólares a torto e a direito? ¿Como conciliar a falta de liberdade de imprensa e restrições severas ao uso da internet e de antenas parabólicas com hordas de turistas brancos e gordos descrevendo as delícias proibidas do capitalismo? Simples: limita-se ao máximo o contato dos cubanos com eles.
("Mucho daño hizo a la conciencia social el acceso a las divisas convertibles, en mayor o menor volumen, por las desigualdades y debilidades ideológicas que creó." Fidel, em Editorial do "Granma", 18 de junho de 2007)
Nem Atlanta em 1955 era tão segregada quanto Havana em 2007. Tudo é separado. Algumas lojas que aceitam moeda forte não podem vender para cubanos e outras das que aceitam peso nacional não podem vender pra turistas. Os táxis para cubanos não podem transportar estrangeiros, e a polícia os pára rotineiramente para pedir o carnê de identidade dos passageiros. A maioria dos novos hotéis são all-inclusive, tipo Club Med, para que os turistas não tenham que sair para nada e nem, Lenin me livre, interagir com os nativos. Há praias só para turistas (as melhores) e as só para cubanos (a xepa). Um povo que durante 30 anos andou de cabeça erguida, orgulhoso de sua Revolução, da sua baixa mortalidade infantil e da sua alta expectativa de vida, dos recordes olímpicos e dos médicos voluntários, da luta anti-colonialista na África e anti-imperialista na América Latina, esse mesmo povo, hoje, não pode freqüentar as melhores praias do seu próprio país.
¿Não foi pra combater uma situação mais ou menos assim que um bando de barbudos se enfurnou na Sierra Maestra?
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Introdução a Cuba: O Período Especial e seu Apartheid
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3 comentários:
Concordo com QUASE tudo o que você escreveu, mas serei obrigada a contrariar isso "Há praias só para turistas (as melhores) e as só para cubanos (a xepa).".
Estive em Cuba no último mês de julho e depois de alguns dias em Havana fui para Varadero, onde me hospedei num desses hotéis all-inclusive: o Meliá Las Américas. Posso te provar com fotos que os cubanos frequentam livremente a praia dita "fechada" do hotel, durante os finais de semana sem problema algum. Até chegar em Varadero e ver com meus olhos cubanos curtindo a praia ao lado de canadenses e europeus, eu também acreditava que eles não podiam frequentar as praias dos turistas.
Desculpe a intromissão, se quiser te mando as fotos, é só me mandar um e-mail.
Abraços
CUBA SÍ
UMA ILHA DE DIGNIDADE
Aline Castro
O povo cubano enfrenta significativas dificuldades materiais por sua circunstância histórica de ex-colonia espanhola depois estadunidense. Não diferente de nós brasileiros, apenas pelo fato de que
eles, os cubanos, se livraram das duas. E pagam por isso um alto preço. O preço de um bloqueio econômico assassino, que fez de uma ilha com limitados recursos de
subsistência, um verdadeiro manancial de criatividade, fraternidade e
solidariedade. À Cuba é vedado (pelos EUA) o recebimento de qualquer
ajuda humanitária, parcerias em desenvolvimento tecnológico, manutenção de relações econômicas
(exportação e importação de produtos de qualquer natureza) de todos os
países alinhados ou subjugados pelos governos norteamericanos. Assim como com o Iraque (e outros países do “eixo do terror”), as "sanções" aplicadas pelos EUA à irredutibilidade de Cuba em insistir na preservação de sua soberania diante dos
incansáveis ataques estadounidenses, vem produzindo (ao longo dos últimos
45 anos) todo tipo de desafios à manutenção da vida daquele povo. Mas não à
manutenção de sua dignidade. A qualquer cubano que se pergunte o que pensa
das dificuldades impostas pelo bloqueio estadunidense, recebe-se como resposta uma frase de seu herói maior, José Martí: "antes morrer de pé, que viver de
joelhos!".
E assim segue Cuba. De pé. Insistindo em mostrar ao mundo (que pouco sabe
de sua resistência honrosa), que é possível construir seu destino, viver sua própria história. Decidir sobre seus próprios problemas. E, ainda, conviver com todas as limitações impostas ao seu sistema político, sem matar de fome uma única criança sequer... ou de doenças da fome e da exclusão... ou do tráfico de armas e drogas, mantido pelo poderio econômico internacional.
Cuba segue viva, lado a lado com o silêncio da
grande mídia internacional, que submete aquele digno povo, à ditadura da
mordaça que cala e distorce verdades. Que só dá visibilidade aos donos de um grande poder de compra. De compra de qualquer coisa, inclusive dignidades e honras de
nações, não importa; após serem transformados em “nada”, se prestam (como quaisquer mercadorias de balcão), a um fantástico leilão de interesses mesquinhos.
Para a maioria dos brasileiros, Cuba é um lugar lá longe. Poucos de nós sequer localizam a ilha no mapa. Mas Cuba está lá, seguindo de pé. Uma ilha com limitados recursos naturais, onde vive um povo com o maior senso de responsabilidade e respeito à vida que o século XX pôde conhecer.
Não se pode mais continuar escondendo essa Ilha de exemplo e de certeza de que um mundo melhor é possível. Cuba e sua história revolucionária, precisam ser conhecidos por todos os povos deste século XXI que lutam por construir um mundo onde caibam todas as pessoas, todas as diferenças. Onde o desenvolvimento de tecnologias não vise mais a construção de um império econômico particular , mas busque, isto sim, formas de viver mais humanas , mais seguras, mais felizes . Formas de viver, que não se sustentem no morrer de nem mais uma vida sequer . Um mundo onde as batalhas sangrentas dêem lugar às batalhas de idéias. Um mundo onde não caibam mais governantes, mensageiros da morte e da destruição... Um mundo definitivamente melhor...
ALINE CASTRO
REDE DE SOLIDARIEDADE A CUBA
BRASIL
WWW.SIPORCUBA.CL
-Praias privadas existem em todo o Mundo!-A diferença é que umas são apenas para gozo e luxo de uns poucos e não trazem mais valia para ninguém.
-Para Cuba o turismo é a sua industria de ponta ou seja as receitas do turismo são importantíssimas é com elas que Cuba financia o seu sistema de ensino do pré-escolar à faculdade e o seu sistema de saúde ambos completamente gratuito para os seus cidadãos.
-sistemas esses que fazem inveja a muitos países desenvolvidos, Vejam : Escrito por Emir Sader
[02/05/2006] "Se os Estados Unidos tivessem a mesma taxa de mortalidade infantil que Cuba, 2.212 crianças estadunidenses sobreviveriam a cada ano". Deu no New York Times. Alguém leu a notícia na imprensa brasileira ou mundial?
-Alguém falou em apartheid!? -É um facto ele o apartheid existe mas não em Cuba onde o povo pode não dispor de todas as praias do seu país; pode inclusive ter falta de muito produtos uns poucos de grande utilidade outros de utilidade duvidosa para o ser humano.- Mas onde todo o homem toda a mulher todas as crianças tem direito a educação e a saúde tem ainda direito a alimentação básica diária.
-O apartheid existe de facto mas nos EUA onde quem tem dinheiro tem direito a saúde e a educação e a alimentação quem não tiver dinheiro não tem direito sequer a existir é um facto e muito menos a por um pé que seja numa praia privada que as há ou mesmo em certas zonas ricas de Nova Iorque ou Washington,onde existe vários tipos de apartheid tanto racial como económico e social.
PS: Porque será que certas pessoas criticam tanto tudo que cheire a rebeldia e são tão obedientes e tão pouco criticas em relação ao império mais criminoso que alguma vez existiu a face do nosso planeta.
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