Os Jineteiros (Texto Completo)

Radical Rebelde Revolucionário

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O Valor do Dinheiro

Dos cubanos que abordam turistas nas ruas, alguns são apenas latinos extrovertidos querendo bater-papo com estrangeiros e, no processo, faturar um almoço. Muitos, entretanto, são jineteiros profissionais.

Não se pode andar cinco metros em Cuba sem ser abordado. Perguntam de onde você é, puxam conversa, são super simpáticos. Daqui a pouco, começam os pedidos: me paga um almoço, ¿uma cervejinha¿, tem uma aspirina, ¿me dá seus sapatos?, e daí pra baixo.

Muitas vezes, depois de horas me amolecendo, investindo seu tempo, trabalhando duro, o cubano inspeciona os bolsos e diz: poxa, não tenho nada, ¿você me daria vinte pesos pra uma cervejinha? Ou então, vinte pesos pro táxi de volta pra casa...

E, vejam só, eu sei que o cara não é meu amigo. Todo o tempo que passou comigo foi só pensando no meu dinheiro. E, mesmo assim, sinto uma pena imensa. Sabe por quê? Porque vinte pesos são dois reais. Dois reais, colega. Dois reaizinhos. Dá vontade de dizer: caramba, esse tempo todo que você investiu e ¿só quer dois reais? ¡Toma quatro e não se fala mais nisso!

Não há melhor ilustração da pobreza generalizada em Cuba. O malandro pensa que está me enganando e, pelo contrário, mesmo se arrancar de mim o dobro do que queria, eu é que me sinto um explorador. E, infelizmente, nem mesmo esses quatro reais eu posso dar, senão ele me recomenda aos seus colegas como um "pato fácil" e, em cinco minutos, estou rodeado por um enxame de pidões.

Esse povo, tão instruído e tão saudável, outrora tão orgulhoso do seu papel na política mundial, hoje se vende por um prato de comida.

De todas as pequenas e grandes tragédias de Cuba, essa é a que mais me entristece.

Tipos de Jineteiros e Seus Truques


É impressionante a quantidade de perguntas pessoais que um cubano consegue fazer a um completo estranho na rua. Querem saber de onde sou, quanto tempo fico, o que estou fazendo aqui, onde estou hospedado, quanto calço, tudo. Essa última não é um exemplo aleatório: eles já estão pensando em pedir seus sapatos. A primeira coisa que me pediram foram minhas havaianas. Literalmente, teve fila.

Dos vinte cubanos que me abordam por dia, uns cinco querem apenas conversar. Não pedem nada. Depois de alguns minutos, se despedem e vão viver suas vidas. São apenas latinos extrovertidos, carentes e curiosos. Os outros quinze são jineteiros.

Grosso modo, existem os jineteiros comerciais e os sexuais: os querem vender produtos e os que vendem um corpo alheio. Quando são incompetentes ou desesperados já vão logo se oferecendo: ¿Cohiba legítimo? ¿trocar dólares? ¿uma cubana caliente?

(Não sei quem cai no papo desses caras. Teria que ser muito burro. O governo, por exemplo, só permite que saiam do país até 23 charutos sem certificado de comprovação. Para mais que isso, você precisa ter um documento oficial de uma loja autorizada. Senão, o pessoal da alfândega vai fumar todos os seus habanos.)

Os jineteiros diretos são os menos problemáticos. Vendedor de rua querendo engrupir turista existe no mundo inteiro. Nem tomam muito do seu tempo. Você diz não umas cinco vezes (sim, são insistentes) e eles já vão embora: afinal, tem muitos outros patos na rua.

Os bons jineteiros não pedem nada na hora. Não querem lhe colocar na defensiva. Batem papo, contam da sua vida, trocam telefone, marcam de se encontrar outro dia. Talvez se ofereçam pra lhe levar a um bom restaurante que só cubanos conhecem, a algum lugar turístico interessante fora dos guias, a um show de música cubana, a um lugar onde você pode comprar charutos a preço de fábrica, a uma casa particular mais barata do que a sua. Naturalmente, se você quiser lhes pagar um almoço no tal restaurante, ou o ingresso para o show, ou lhes dar um charuto, claro que não vão recusar a generosidade de um turista tão simpático.

O primeiro truque é o da comissão. Sempre que um cubano lhe leva a algum lugar, ele ganha algum. É a regra. Até aí, tudo bem. Acontece no mundo todo. O problema em Cuba é que a comissão não sai do bolso do estabelecimento, mas do turista. Quando você entra no restaurante com o simpático cubano que o recomendou, sua conta fica automaticamente 50% mais cara.

Em breve, entretanto, começam as histórias tristes. Não é fácil encontrar remédios em Cuba, por isso recomenda-se aos turistas que tragam tudo o que possam precisar. Eu gastei uns duzentos reais na farmácia antes de vir pra cá. Sabendo disso, os jineteiros inventam histórias sob medida: ah, você nem sabe, estou preocupado, minha avó está muito gripada, coitadinha, mas a farmácia do governo não tinha remédio pra gripe, não sei mais o que eu faço, meu deus... E o pobre turista, comovido pelas dificuldades do heróico povo cubano, lhe chama para ir ao seu hotel e lhe dá todo seu estoque de Naldecon, prontamente revendido por uma fortuna no mercado negro.

Tem também o que eu chamo de pedido póstumo: o sujeito olha pra baixo, quase corando de vergonha, com uma expressão torturada que parece dizer ¡coitado de mim por ter que pedir isso! e balbucia: ¿me deixa esses sapatos quando for embora?; adoraria essas suas havaianas como lembrança dos nossos dias juntos; essa sua bolsa salvaria minha vida na escola, ¿poderia deixar ela comigo?; puxa, aqui em Cuba não se encontra um cortador de charuto como o seu, etc. Não querem nada agora, ¡imagina!, mas se não for fazer falta... Afinal, na sua terra, lugar de riqueza e fartura, com certeza você pode comprar outro baratinho, até melhor, e eu ficaria com essa recordação tão linda da nossa amizade... Enquanto isso, uma solitária lágrima escorre por suas faces, brilhando sob o sol.

Se eu não fosse um cínico empedernido, cortaria meu coração. Nessas horas, eu sempre me lembro do que dizia minha santa avozinha: confie em todos, mas corte o baralho.

Um Dilema Cubano

Naturalmente, a situação nunca é assim preto-e-branca.

Afinal, os cubanos realmente têm pouco acesso a bens de consumo como bolsas, sapatos, havaianas, etc. Se você fez um amigo aqui e pode deixar suas havaianas com ele, ¿por que simplesmente não comprar outras por sete reais no Brasil? Os cubanos realmente ficam doentes e sofrem de uma maciça falta de remédios. ¿O que custa dar um anti-histamínico pro seu amigo cubano?

Minha amiga Isabel passou três meses em Cuba, durante a filmagem de "Estorvo". Me recomendou que não trouxesse nada que não pudesse deixar pra trás. Annie, no seu último dia de Cuba, passou na casa de uma amiga e deixou todo seu guarda-roupa. Voltou pra Nova Orleans literalmente com a roupa do corpo.

Para um estrangeiro em Cuba, talvez o maior dilema seja justamente esse: ¿como distinguir o jineteiro que lhe vê como uma fonte em potencial de aspirina para vender no mercado negro do cubano que ficou seu amigo e está precisando de algo pra aliviar a dor da sua avozinha?

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Para ler os outros textos desse livro, compre o ebook Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas, à venda pela internet por apenas R$20.

4 comentários:

DANIEL said...

Olá Alex, deixaste um post no meu recente blog sobre seu livro. Li algumas partes aqui no blog mesmo. Seu ceticismo descontraído é interessante, infelizmente ainda não fui a Cuba, mas quero ler seu livro antes de ir, não como guia é óbvio, mas pra desmontar os dois aspectos que coloquei na questão do meu blog, a intolerância da recorrência aos bens de consumo que o capitalismo nos coloca e a ilusão de um paraíso que se alguma vez parece manchado, é apenas pela ideologia burguesa que nos massacra, enfim... Que será liberdade?

Ni said...

Eu saí de Cuba com muito mais do que 23 "tabacos" e sem nota e não tive nem meio charuto apreendido. Claro que não recomendo ninguém a fazer isso, mas eu tive que arriscar hehehe
abraços

Mário Marinato said...

Ih, rapaz, taí uma situação pronta para me colocar em uma sinuca de bico daquelas.

Ao mesmo tempo em que sei dizer "não" com tranqüilidade, sou péssimo para entender de gente e saber diferenciar um jineteiro de um novo amigo sincero realmente necessitado.

Acho que talvez eu resolvesse fazer uma vizinha à avozinha antes.

E não precisa agradecer por eu estar comentando ao vivo, não. Eu é que agradeço por tê-lo escrito.

B said...

ah isso me desanima um pouco
porque detesto ficar dizendo nao pra vendedores e pedintes..
e quero visitar cuba, mas né.. levarei o que puder entao! obrigada pelas dicas