Uma Civilização de Posseiros

Radical Rebelde Revolucionário

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O Vedado, bairro classe média alta de Havana, é repleto de belíssimos palacetes da belle epoque, jóias da arquitetura européia, hoje dilapidados e decaídos, habitados por gente pobre e negra, seus varais repletos de roupas rasgadas secando ao sol em jardins projetados pelos maiores paisagistas franceses. Um pouco como os índios neolíticos da América Central ocupando as pirâmides abandonadas pelos maias, Cuba parece uma civilização de posseiros: há uma discrepância visível, gritante entre as casas e as pessoas que as habitam.

Hotel Presidente in Vedado

A riqueza de Havana, assim como a do Rio e a de Nova Orleans, se construiu nas costas de escravos. Os palacetes coloniais das três cidades que eu mais amo no mundo foram envernizados com o sangue de um povo que morria feito moscas para que meia dúzia de janotas pudessem ir à ópera, declamar poesias nos cafés e usar polainas nos sapatos. Até hoje, os descendentes de escravos são consistentemente mais pobres, mais doentes e menos educados do que os descendentes dos escravizadores - daí a importância da ação afirmativa.

Sim, a discrepância entre os palacetes de Vedado e os rostos negros e mãos calosas dos seus atuais moradores é surpreendente - mas só porque, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, pela herança maldita da escravidão que nossas sociedades ainda arrastam pelos tornozelos como uma bola de ferro, quando se vê uma mansão nos Jardins ou um brownstone em Upper West a última coisa que se espera é que o dono da casa seja um estivador negro. E, óbvio, nunca é.

Em Cuba, falta de tudo, menos justiça poética.

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1 comentários:

Anonymous said...

achei interressante sua " justiça poetica " , posso de dar uma sugestão , porque nao se muda para cuba , e vive sua justiça poetica